Um ciclista de 44 anos procurou ajuda por causa de uma dor no peito que surgia quando ele pedalava muito forte.
E ele não era um ciclista qualquer. Já tinha inclusive corrido no Tour de France.
O colesterol dele era normal. Não fumava, não tinha pressão alta, não tinha diabetes e não tinha ninguém na família que tivesse infartado cedo.
Os exames do coração mostraram uma obstrução grave na descendente anterior, a artéria que irriga a maior parte do músculo do coração.
Esse caso abre uma revisão de 2025 sobre placas de gordura em atletas, e ele está logo no começo por um motivo.
Nenhuma quantidade de exercício compra imunidade.
Um dos meus primeiros artigos aqui no Substack foi sobre VO2 e a atividade física.
Justamente para interrogar, à luz da boa evidência científica, se devemos realmente buscar números cada vez maiores para sermos mais saudáveis.
Pois bem, a conclusão foi clara: se exercitar e praticar esportes muito provavelmente reduz mortalidade e é um dos grandes pilares da saúde.
Recentemente falei do exercício resistido, como a musculação, mostrando que ela também parece impactar muito bem na chance de você morrer.
A questão é: até quanto?
Existe uma quantidade de exercício que pode cruzar a linha entre o fazer bem e começar a fazer mal?
Se a sua avó, como a de um grande amigo meu, dizia repetidamente que tudo em excesso faz mal; talvez ela estivesse certa.
Por algum motivo essa sabedoria ancestral parece estar certa também para o que clamamos como elixir da vida: a atividade física.
Por qual motivo a atividade física poderia, em algum cenário, fazer mal?
Bom, prometo nessa revisão não ficar muito nos problemas ortopédicos que infelizmente podem surgir.
Afinal, só tem lesão quem treina.
Mas para você ter uma noção, em corredores, a incidência de lesões relacionadas à corrida (varia amplamente): 14,9% em iniciantes, 26,1% em recreacionais e até 62,6% em competitivos, sendo joelho (25,8%), pé/tornozelo (24,4%) e perna (24,4%) os locais mais afetados.
O principal fator de risco costuma ser a progressão inadequada de cargas e volume de treino.
Mas não é sobre isso que eu quero falar hoje.
É sobre algo mais contraintuitivo ainda.
É sobre a possibilidade de muito exercício aumentar a chance de você ter um infarto.
Ninguém sabe ao certo o porque isso pode acontecer. Existem hipóteses, apenas hipóteses.
Durante exercícios de alta intensidade a frequência cardíaca dispara, a pressão arterial se eleva e o fluxo de sangue no coração acelera muito.
Essas alterações, quando em níveis muito aumentadas, podem ter seus efeitos colaterais, como causar um estresse na parede das artérias e desencadear resposta inflamatória.
Pense no calo da mão.
Você treina, a pele fica em carne viva, e o corpo responde endurecendo aquele pedaço. No músculo a gente chama isso de adaptação e comemora.
O que não sabemos ainda é se a artéria faz alguma versão disso.
Isso se tornou uma preocupação real, levando o American College of Cardiology e a European Association of Preventive Cardiology a publicar, em 2026, um consenso clínico sobre atletas Masters.
Aqui está a ilustração central desse artigo:

“Ta bom, Mateus, me convenceu”. Mas o que seria muito exercício?
Aqui eu diria que 90% das pessoas que leem essa newsletter ficariam tranquilas.
Esportes de final de semana, corridas 3x por semana, academia de maneira frequente, nada disso é o suficiente para ter algum risco cardíaco.
Os atletas que podem estar em risco são em geral homens, acima de 35 anos e que praticam endurance, e muito endurance.
Como definir exercícios de endurance?
Exercícios de endurance (ou de resistência aeróbica) são aquelas atividades aeróbicas mantidas por períodos prolongados, nas quais o sistema cardiovascular e respiratório trabalham de forma sustentada para entregar oxigênio aos músculos.
Corrida, ciclismo, natação, remo, caminhada rápida e dança são os exemplos clássicos.
Tá, mas quanto?
Uma revisão de 2025 coloca a linha por volta de 8 horas semanais de treino de endurance.
Esse famoso gráfico abaixo mostra exatamente isso, uma curva em J invertido demonstrando formação de placa de gordura pela intensidade do exercício.
O que aparece na artéria de quem treina muito
Diversos estudos comprovaram a associação de placa de gordura com quem praticava muito exercício.
Quanto maior o volume de treino, e principalmente a intensidade, maior
A relação entre o volume de exercício de endurance e a prevalência de aterosclerose coronariana parece seguir um curioso padrão em “J” invertido, como mostrei acima, ao invés de simplesmente diminuir de forma linear.
Ou seja, até certo ponto, mais exercício reduz o risco, mas depois de um limiar, pode haver um pequeno aumento na prevalência de placas.
O primeiro sinal apareceu em 2008. Pesquisadores alemães compararam maratonistas com homens da mesma idade e com os mesmos fatores de risco.
Eles mediram o escore de cálcio, que é uma tomografia que conta quanto cálcio existe dentro da parede das artérias do coração. Mais cálcio ali significa mais placa antiga.
36% dos corredores tinham escore de cálcio igual ou acima de 100, contra 22% dos controles.
Depois vieram as tomografias mais detalhadas, que mostram não só o cálcio, mas o tipo de placa.
Um grupo holandês avaliou 284 homens acima de 45 anos que treinavam por conta própria. Os que acumularam mais treino ao longo da vida, e os que treinavam nas intensidades mais altas, tinham mais cálcio e mais placa.
Um detalhe importante, esses achados ainda não apareceram em mulheres!
Está certo que a quantidade de estudos em atletas de endurance masculinos é maior, mas do que temos de mulheres até então, a associação ainda não existe.
Eu imagino que ela pode aparecer em mulheres pós menopausa, mas é apenas um palpite.
Por fim, a teoria da inflamação nesses casos também tem suporte científico.
Pesquisadores do Massachusetts avaliaram atletas saudáveis, entre 40 e 70 anos, que estavam treinando para a Maratona de Boston de 2024.
Eles mediram um marcador de inflamação nas artérias coronárias logo após a prova e repetiram a avaliação depois de um período de redução relativa dos treinos.
O achado principal foi interessante: o treinamento para a maratona pareceu estar associado a um aumento da inflamação das coronárias, que diminuiu após esse período de “destreinamento” parcial.
É claro que esse tipo de estudo tem limitações importantes. especialmente por ser observacional, incluir poucos participantes e ter um acompanhamento curto.
Ainda assim, ele sugere um possível mecanismo para o chamado “paradoxo do atleta” dos atletas de endurance.
Minha conclusão disso tudo
Veja, meu objetivo aqui está longe de ser um advogado do diabo.
Eu sou MUITO a favor da atividade física.
Todo mundo deveria praticar algum exercício e ter um esporte que além de entregar saúde física, te dê motivação e senso de pertencimento.
E também sou MUITO a favor da interpretação da ciência de maneira adequada.
E traduzida para vocês de maneira honesta.
Para você tomar as suas próprias decisões e, principalmente, não ser enganado por algum influencer que quer que você obtenha VO2 cada vez maiores.
Um dos maiores escritores sobre longevidade, Peter Attia, é enfático em dizer que a forma mais eficaz de viver mais e melhor é atividade aeróbica consistente ao longo da vida inteira, para atingir o maior VO2 possível.
Mas esse extremo parece não ser verdade.
A primeira parte está correta, a segunda, provavelmente não.
A febre de atividade física, corrida, maratona, triatlon é ótima.
Tem muito mais benefício em fazer atividade física do que não fazer.
E provavelmente entre fazer MUITA atividade física e não fazer.
Só que entre fazer MUITO e simplesmente fazer, o simplesmente fazer pode vencer.
Como disse James O’Keefe no próprio podcast do Attia:
“Se o exercício fosse um remédio, seria o melhor remédio que a gente tem para prevenir doença cardíaca. Mas, como em qualquer remédio, você precisa acertar a dose.”
E como dizia a avó do meu amigo, tudo em excesso faz mal.
Você precisa só descobrir o que é excesso para você.
E se tiver nesse excesso, acompanhar com um bom cardiologista (e provavelmente ortopedista e fisioterapeuta também) para decidir o que fazer é essencial.
Mais uma vez, é sobre fazer menos, mas fazer o certo.
Até semana que vem!
(ou talvez em duas semanas, pois estarei no congresso europeu de cardiologia nesses próximos dias, vamos ver como vai ser).



