Você precisa passar no cardiologista antes de praticar esportes?
A intensidade decide quem precisa. E parar de treinar nunca é a resposta certa.
Há duas semanas eu falei aqui sobre morte súbita no esporte, aquele evento raro e devastador que insiste em virar manchete dos jornais.
E sempre que esse assunto vem à tona, chega junto uma pergunta no meu consultório e nos comentários:
“Doutor, eu preciso passar no cardiologista antes de começar a me exercitar?”
A resposta não é tão definitiva quanto “sim ou não”.
Ela depende de algumas coisas, mas com destaque a intensidade da prática do exercício.
Mas antes de chegar lá, vamos retornar ao tamanho real do problema.
Porque é o medo desproporcional que faz gente boa tomar a pior decisão de todas: não se exercitar.
Primeiro, o tamanho real do risco
Vou te dar os números, e depois traduzir.
A incidência de morte súbita em atletas varia entre 1 a cada 1 milhão e 1 a cada 5 mil por ano, dependendo de quem você conta, de como conta e do país.
Em universitários, a estimativa mais aceita gira em torno de 1 a cada 50 mil por ano.
Na Dinamarca, onde a notificação é obrigatória (ou seja, o dado é mais confiável), a incidência durante ou logo após o esforço é de cerca de 1,2 a cada 100 mil pessoas por ano.
Alguns grupos têm risco maior: homens (de 3 a 9 vezes mais que mulheres), pessoas negras (cerca de 3 vezes mais) e praticantes de basquete e futebol.
Traduzindo tudo isso:
É raro. Muito raro. Mas não é zero.
Raro o suficiente para você não viver com medo.
Mas real o suficiente para a pergunta valer a pena.
E aqui está o detalhe: a maioria absoluta dessas mortes acontece em esportistas amadores e recreativos, não apenas em atletas profissionais.
Pensa comigo: o profissional já passa por avaliação médica regular, é monitorado, tem equipe ao redor.
O amador de fim de semana, não.
Ele larga do sedentarismo direto para a meia maratona, sem nunca ter sentado na frente de um médico.
É exatamente esse público que mais se beneficiaria de uma conversa.
Guarde isso.
Por que a causa muda conforme a idade
A causa da morte súbita no esporte é completamente diferente dependendo da idade do praticante, como falamos há duas semanas.
E é por isso que a avaliação também muda.
Abaixo dos 35 anos, o vilão costuma ser um problema silencioso, de nascença ou genético. Exemplo clássico é a miocardiopatia hipertrófica (o músculo do coração mais grosso do que deveria), além de problemas elétricos e artérias coronárias que se formaram em posição errada.
Acima dos 35 anos, a história vira outra. Mais de 80% das mortes súbitas vêm do entupimento das artérias do coração, a velha aterosclerose. É o mesmo infarto de sempre, só que desencadeado pelo esforço.
E quem corre mais risco nessa faixa?
Quem tem pouco ou nenhum hábito de treino e parte para o esforço intenso de uma vez. O sujeito sedentário que decide “compensar” tudo num domingo.
Some a isso um fato incômodo: mais da metade das pessoas que infartam fazendo esforço não tinha nenhum sintoma nem diagnóstico prévio.
Por isso a conversa com o médico existe.
Não para te assustar e não para te proibir. Mas para tornar a sua prática mais segura.
Mas então todo mundo precisa passar no cardiologista?
Não.
E aqui está o critério que organiza a resposta, o detalhe que prometi lá no começo:
O gatilho não é ser “atleta”. É a intensidade do que você faz.
Não importa se você tem carteirinha de federação ou se é só você e o tênis na rua.
O que define a necessidade de avaliação é o quão forte você treina.
Para entender em que faixa você está, existe uma maneira mais simples que relógio e fórmulas.
É o teste da fala:
Leve: você consegue conversar e até cantar. (Caminhada tranquila.)
Moderada: você conversa, mas entre frases precisa de uma pausa. (Caminhada rápida, pedalada leve.)
Intensa: você só consegue dizer poucas palavras antes de buscar o ar. (Corrida, treino intervalado, futebol jogado para valer.)
A regra que sai das diretrizes é direta:
Atividade leve, como lazer: os documentos não exigem uma avaliação cardiológica estruturada. Caminhar no parque não pede um eletrocardiograma.
Atividade de moderada a alta intensidade: aí sim, passa a ser prudente avaliar. Independentemente de você se chamar de atleta ou não.
Os tipos de praticante (e onde você se encaixa)
As diretrizes brasileira, europeia e americana separam, em essência, três perfis:
O atleta profissional / de elite. Treina muitas horas por semana (os europeus usam o corte de 10 horas ou mais), compete formalmente e tem o esporte como atividade principal. Para ele, as três sociedades concordam sem exceção: a avaliação é obrigatória.
O esportista amador de moderada a alta intensidade. O maratonista de fim de semana, o triatleta, o ciclista de pedais longos, o corredor de rua que compete de vez em quando. Treina forte, mas o esporte não paga as contas dele. Para esse perfil, a avaliação é recomendada. É possivelmente hoje o público que mais se beneficia, por já ser menos acompanhado no dia-a-dia.
Quem faz atividade leve por lazer. Caminhada, alongamento, uma pedalada tranquila. Aqui não há indicação de avaliação estruturada obrigatória, embora qualquer pessoa, é claro, possa ter uma doença oculta.
As próprias diretrizes admitem que existe uma zona cinzenta entre esses grupos. O amador que treina mais que muito profissional, por exemplo. Nesses casos, o bom senso do médico é o que decide.
A mensagem mais importante
Se você pratica esporte de moderada a alta intensidade, é prudente passar por uma avaliação.
Prudente. Não obrigatório.
E aqui vem a parte mais importante de toda esta edição, então leia devagar:
Você não deve deixar de fazer atividade física enquanto espera passar no cardiologista.
O sedentarismo é muito, muito pior do que o exercício.
A atividade física regular reduz a mortalidade em 20% a 30% comparada a ficar parado.
O evento cardíaco no esporte é raríssimo.
O estrago de não se mexer é diário, lento e garantido.
Trocar o sedentarismo por uma avaliação pendente é um péssimo negócio.
Isso sem contar os outros hábitos saudáveis que acompanham o esportista.
A avaliação serve para reduzir um risco que já é pequeno, identificando alguma condição silenciosa que possa estar associada a um evento.
Ela torna mais seguro um esporte que você deveria estar fazendo de qualquer jeito. Ela não é a senha que libera você a começar.
Dito isso, o cuidado cresce com a exposição:
Se você é atleta profissional, o risco se acumula a cada temporada de treino intenso. A avaliação pré-participação deixa de ser prudente e passa a ser importantíssima.
Se você é esportista amador que busca alta intensidade e compete eventualmente, você está mais perto do profissional do que imagina. Também é muito prudente avaliar.
Se você pratica atividades moderadas a intensas apenas ocasionalmente eu sugiro sim uma avaliação médica em algum momento, especialmente se você for acima de 35 anos.
Se você só caminha ou faz atividade leve por prazer, respira fundo e segue. O médico, aqui, é para o seu check-up de saúde geral, não para uma triagem de morte súbita.
Afinal, como é essa tal avaliação? (e o que NÃO é)
Agora a pergunta prática: o que o médico realmente faz?
É bem menos do que a indústria do check-up gosta de te vender.
A base da avaliação pré-participação é barata, rápida e poderosa. São duas coisas:
1. Uma boa consulta. Conversa e exame físico guiados pelos chamados 14 pontos: 8 perguntas e 6 itens de exame físico. Eu quero saber se você já sentiu dor no peito ou desmaiou fazendo esforço, se tem falta de ar desproporcional, se alguém na sua família morreu de forma súbita antes dos 50 anos, se há doença de coração em parentes próximos. No exame, escuto sopros, meço a pressão, procuro sinais de doenças específicas.
2. Um eletrocardiograma de repouso. Aquele exame de cinco minutos, com os eletrodos no peito, que formam aqueles famosos traçados.
E só isso já muda muito.
A consulta sozinha tem sensibilidade baixa, de 10% a 20%, para flagrar doenças silenciosas. Quando você soma o eletrocardiograma, a capacidade de detectar condições potencialmente fatais sobe para cerca de 94%.
A Itália aposta nisso desde 1982, quando tornou o eletrocardiograma obrigatório por lei para atletas. Um estudo clássico mostrou queda de quase 90% na morte súbita de atletas na região do Vêneto ao longo de 26 anos.
Não é prova definitiva (nunca houve um estudo perfeito comparando os dois modelos), mas é o melhor dado de mundo real que temos.
Agora, o eletrocardiograma em mãos inexperientes pode ter um preço: o falso-positivo.
Quanto mais gente saudável você testa, mais alarmes falsos aparecem. E cada alarme falso vira mais exame, mais ansiedade e, às vezes, um afastamento indevido de alguém que estava perfeitamente bem.
Esse problema, aliás, é pior em atletas negros, que naturalmente têm mais variações no traçado.
Por isso o eletrocardiograma só funciona bem nas mãos de quem sabe diferenciar o coração de atleta (uma adaptação normal e saudável ao treino) de uma doença de verdade. Sem essa expertise, o exame faz mais mal do que bem.
Por isso, se possível, procure um bom cardiologista.
O teste de esteira é importante para todos? Não.
Essa é a dúvida que mais recebo, então vou ser direto.
O teste ergométrico (a famosa esteira) não é um exame de rotina para todo mundo.
Pedir esteira para um jovem saudável e sem sintomas, só por precaução, é um péssimo negócio: rende muito alarme falso e quase nenhum benefício.
As diretrizes são claras em não recomendar isso de rotina.
A lógica brasileira é estratificada por idade e risco, e funciona mais ou menos assim:
Abaixo de 35 anos, saudável, sem fatores de risco: consulta + eletrocardiograma. Esteira só se aparecer um sintoma ou alguma outra suspeita.
A partir de 35 anos, ou com fatores de risco (pressão alta, diabetes, colesterol alto, histórico familiar, tabagismo): aí a esteira entra para procurar entupimento nas artérias, que é a principal causa de evento nessa faixa.
Atleta de elite: avaliação completa, com eletrocardiograma, ecocardiograma e um teste funcional (esteira ou teste cardiopulmonar).
Detalhe importante:
O teste de esteira, principalmente o teste cardiopulmonar (o da capa dessa edição) tem um papel fundamental para acompanhar performance e prescrever o treinamento em diversos cenários.
Então seu médico pode solicitá-lo para isso, não para saber se você pode ou não praticar a atividade física, ficou claro?
E o ecocardiograma, a ressonância, a angiotomografia, o escore de cálcio? Nenhum deles é triagem de rotina.
Eles são exames de confirmação, disparados quando a consulta, o exame ou o eletrocardiograma acendem uma luz amarela.
Existe um princípio que eu repito sempre:
Quem não sabe o que procura não reconhece quando encontra.
Não se pede “um tudão” para todo mundo.
Pede-se o exame certo, para a pessoa certa, no momento certo.
O resto é ansiedade vendida como prevenção.
Juntando tudo
Então, recapitulando, porque eu sei que foi bastante coisa:
A morte súbita no esporte é rara, mas real, e a causa muda com a idade.
Se você treina de moderada a alta intensidade, é prudente passar por uma avaliação. Se compete ou é profissional, é ainda mais importante. Se só caminha por prazer, relaxa.
Mas, acima de tudo: não use o cardiologista como desculpa para não começar.
A avaliação reduz um risco pequeno. O sedentarismo é o risco grande, e ele já está acontecendo.
A boa avaliação é simples: uma conversa honesta, um exame físico e um eletrocardiograma. Os exames sofisticados vêm depois, e só se houver motivo.
Se você quer cuidar do seu coração antes de apertar o ritmo, a gente conversa. Meu trabalho é te deixar mais seguro para treinar mais, não para treinar menos.
Fazer menos. Fazer certo.
Até a semana que vem.
Referências:
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