Quando a medicina pula a fila
Peptídeos, regulação e as lições que a história já ensinou.
Semana passada, o Secretário de Saúde dos Estados Unidos disse em um podcast que pretende liberar 14 substâncias (famosos peptídeos) que a agência regulatória americana havia restringido por falta de segurança comprovada.
O argumento: se as pessoas querem usar, melhor que comprem de fontes legais do que do mercado negro.
Reconheceu a lógica?
É a mesma que se usa para tentar legalizar qualquer coisa.
Mas desta vez, estamos falando de moléculas injetáveis que não passaram por testes adequados em seres humanos.
O assunto são os peptídeos.
E vale a pena entender por que o mundo está empolgado com eles e por que essa empolgação deveria ligar um alarme, não um sorriso.
Primeiro, o que são peptídeos
De forma simples: são cadeias curtas de aminoácidos, as mesmas peças que formam as proteínas do nosso corpo.
O corpo produz peptídeos naturalmente. Eles participam de funções como controle de fome, crescimento, inflamação e cicatrização.
Até aqui, nenhuma novidade.
A insulina, por exemplo, é um peptídeo.
Os GLP-1, a classe do Ozempic e do Wegovy que escrevi há duas semanas, também são.
E é justamente aí que mora a confusão.
Os GLP-1 são possivelmente a classe de peptídeos mais rigorosamente estudada da história da farmacologia.
São mais de 20 anos de pesquisa, com ensaios clínicos randomizados, controlados por placebo, envolvendo dezenas de milhares de pessoas.
A gente sabe o que eles fazem, quanto fazem, para quem funcionam e quais são seus efeitos colaterais.
Existe um corpo de evidência denso, construído passo a passo.
Agora, o mercado (com a ajuda de celebridades, influenciadores de longevidade e clínicas de bem-estar) está extrapolando a fama dos GLP-1 para uma série de outros peptídeos que não passaram pelo mesmo crivo.
Substâncias como BPC-157, ipamorelinа, TB-500, CJC-1295.
Os nomes parecem códigos porque são, literalmente, compostos experimentais.
A maioria dos dados que existem sobre eles vem de estudos em animais. Não em humanos. Não em seres como você.
Eric Topol, cardiologista e um dos pesquisadores mais respeitados do mundo, publicou uma revisão detalhada sobre o assunto.
Ele catalogou os peptídeos mais populares, separou os que têm aprovação da FDA dos que não têm, e chegou a uma conclusão direta: não existe evidência de ensaios clínicos randomizados em humanos que demonstre que esses peptídeos cumprem o que prometem.
Nenhum. Zero. Nada.
Mas as promessas são enormes: antienvelhecimento, ganho muscular, melhora imunológica, função sexual, saúde cognitiva.
E o preço acompanha: nos EUA, clínicas vendem injeções individuais de peptídeos por 200 a 500 dólares. Uma delas oferece uma assinatura premium de 85 mil dólares por ano.
O serviço inclui peptídeos, infusões e, claro, a certeza de que você está vivendo na vanguarda da medicina.
E agora vem a pergunta que importa: se não temos evidência de que funcionam, sabemos pelo menos que são seguros?
Também não.
Na verdade, existem sinais preocupantes. O TB-500, por exemplo, mostrou em estudos pré-clínicos que pode acelerar o crescimento de tumores dormentes.
Peptídeos que atuam no eixo do hormônio de crescimento carregam risco teórico de câncer, justamente por estimular a proliferação celular de forma ampla.
E o BPC-157, o queridinho da turma da cicatrização, promove a formação de novos vasos sanguíneos (um mecanismo chamado angiogênese) que, em pessoas com predisposição, pode alimentar tumores em vez de curar tecidos.
Claro que são riscos teóricos. Mas que só saberemos a verdade quando forem colocados à prova, devidamente.
Eu não sou um negacionista dos peptídeos.
Pelo contrário, me considero um entusiasta. As canetas estão provando seu potencial.
Mas sou contra, e muito, o cegamento para as etapas necessárias para a busca pela verdade ( do que funciona ou não).
A ciência anda devagar?
Você talvez pense: “A regulação exagerada atrasa a inovação. Se fôssemos esperar por todos os estudos, não teríamos nada.”
Não te julgo. Existem correntes fortes por aí que ganham muito fazendo você pensar assim.
É um argumento que soa razoável (dentro das famosas narrativas “que fazem sentido” no mercado do charlatanismo médico), até você olhar para a história.
Na década de 80, médicos enfrentavam um problema real: pacientes que sobreviviam a um infarto tinham arritmias e morriam subitamente.
Surgiram remédios, como flecainida, encainida, que eliminavam essas arritmias no eletrocardiograma.
O exame ficava lindo. Os médicos comemoravam. A lógica era irresistível: sem arritmia, sem morte súbita.
Só que ninguém tinha testado a lógica direito.
Quando finalmente fizeram um ensaio clínico grande e controlado (o estudo CAST), o resultado foi devastador.
Os pacientes que tomavam a medicação morriam mais do que os que tomavam placebo.
O risco de morte arrítmica era 3,6 vezes maior. O estudo foi interrompido antes do previsto. E o número que ficou para a história: a cada 21 pacientes tratados, uma morte a mais era causada pelo próprio remédio.
A flecainida resolvia o exame. Mas matava o paciente.
Não estou usando um fato isolado para criar uma narrativa. Esse padrão se repetiu.
Na década de 90, o Vioxx, um anti-inflamatório que prometia tratar dor sem causar problemas estomacais, foi aprovado com base em dados que pareciam sólidos.
Em poucos anos, estimativas apontaram entre 88 mil e 139 mil eventos cardiovasculares nos Estados Unidos, incluindo infartos e mortes, atribuídos à medicação.
A Merck retirou o medicamento do mercado em 2004, mas evidências internas da empresa sugeriam que os riscos já eram conhecidos desde antes da aprovação.
E por fim a talidomida. Prescrita para enjoos na gravidez nos anos 50 e 60, sem estudos adequados de segurança em gestantes.
O resultado: mais de 10 mil crianças nasceram com malformações graves em 46 países. Foi esse desastre que levou à criação das regras modernas de teste de medicamentos.
O que penso sobre isso tudo
A história da medicina é clara: toda vez que pulamos etapas, pessoas pagam. Não é questão de se, mas de quando.
Agora volto aos peptídeos.
O Secretário de Saúde dos EUA quer reclassificar 14 substâncias, abrindo o caminho para que farmácias de manipulação possam produzi-las e vendê-las com receita.
O argumento é que a proibição empurra as pessoas para fornecedores clandestinos. Até certo ponto, é verdade. O mercado negro existe e é perigoso.
Mas a solução para o mercado negro não é pular a ciência. É facilitá-la.
É acelerar os estudos. É investir em ensaios clínicos adequados.
É fazer o caminho completo que é mais demorado, sim, mas que é o único caminho que diferencia um medicamento de uma aposta.
O primeiro princípio da medicina (uma das máximas do famoso Juramento de Hipócrates), mais antigo do que qualquer regulação moderna, diz: “Primum non nocere” (Primeiro, não cause mal).
Esse princípio não é conservadorismo.
Ele existe porque, quando se trata de colocar uma substância no corpo de milhões de pessoas, a diferença entre confiança e ignorância é um ensaio clínico.






