Canetas emagrecedoras: o que ninguém te conta antes de te incentivar
Uso sem critério pode ter um preço. Saiba qual é antes de começar.
Na segunda edição da Não Infarte, já busquei um tema polêmico: Ozempic e Mounjaro.
Será clickbait? Não nego que o assunto chama atenção.
Está na boca do povo.
Mas minha preocupação é genuína.
Ela já existia e aumentou depois que estudei o tema a fundo e entrevistei um endocrinologista em um podcast de cardiologia que faço parte, o DozeCast (o melhor, rs). O episódio vai ao ar nessa quinta, dia 19/03.
Aqui vão minhas conclusões.
Primeiro, o mérito: essas medicações são extraordinárias.
Não é exagero.
Os agonistas do receptor de GLP-1 (semaglutida, o princípio ativo do Ozempic e do Wegovy) e os co-agonistas GLP-1/GIP (tirzepatida, o princípio ativo do Mounjaro) representam uma das maiores revoluções farmacológicas das últimas décadas no tratamento da obesidade.
Os números de perda de peso são impressionantes: cerca de 15% do peso corporal com semaglutida e até 20-22% com tirzepatida. E a próxima geração, a retatrutida, um triplo agonista, já mostra perdas superiores a 22% em estudos de fase 2.
Atenção: “estudos de fase 2 significa” que ainda tem chão para ele demonstrar realmente seu valor. Não está pronto para ser comercializado e muito menos divulgado.
Mas o que me interessa como cardiologista vai além do peso.
Em diabéticos, uma metanálise (análise conjunta de grandes estudos) mostra que esses medicamentos reduzem em 14% a chance de infarto, AVC ou morte cardiovascular e em 12% a mortalidade geral.1
Isso é muito robusto. E não para aí.
O estudo SELECT, com mais de 17.000 pacientes obesos sem diabetes mas com doença cardiovascular estabelecida, mostrou que a semaglutida reduziu em 20% os eventos.2
Parte desse benefício parece ser independente da perda de peso! Sugerindo um efeito cardioprotetor direto da medicação.
Então sim: para diabéticos, para obesos com alto risco cardiovascular, para perfis clínicos específicos, o benefício supera de longe um possível risco.
Não tenho dúvida.
O problema começa quando o contexto muda.
Essas medicações foram aprovadas, estudadas e validadas nessas populações.
Mas o que acontece hoje no mundo real é diferente: pessoas sem obesidade, sem diabetes, sem risco cardiovascular relevante, usando a caneta por curtos períodos para perder alguns quilos antes do verão ou de um evento.
E é aqui que a equação muda.
Primeiro, existe uma contraindicação absoluta que pouca gente conhece, a história pessoal ou familiar de um tipo de câncer na tireoide: o carcinoma medular de tireoide ou neoplasia endócrina múltipla tipo 2.
São bem, bem raros. Mas se você tem isso na família, essa medicação não é para você. Ponto.
Depois, os efeitos colaterais comuns: náusea, vômito, diarreia e refluxo atingem de 10 a 20% dos pacientes, ou seja, 1 a cada 5.
O que se sabe é que esses efeitos tendem a ser mais frequentes no início e diminuírem de intensidade com o passar do tempo.
A velha e boa dica é a progressão bem lenta das doses, para aumentar a tolerância.
Não são perigosos na maioria das vezes, mas são desconfortáveis. E um dos principais motivos de abandono.
E existem os efeitos raros, que merecem atenção justamente porque, com milhares de pessoas usando, “raro” deixa de ser irrelevante em números absolutos (casos vão acontecer!):
Pancreatite: incidência inferior a 0,2%, sem causalidade confirmada, mas a associação é plausível biologicamente e exige vigilância.
Colelitíase: risco aumentado de cálculos biliares (pedras na vesícula), especialmente com perdas de peso rápidas.
Neuropatia óptica isquêmica anterior (NOIA): uma causa rara de perda visual. Um grande acompanhamento de pacientes (coorte) estimou que para cada 4.500 pessoas tratadas ao longo de cinco anos, pode haver um caso de cegueira. O risco é baixo, mas existe e foi noticiado na mídia.
Ruptura de tendão de aquiles: dados recentes sugerem um aumento no risco de ruptura de tendão de Aquiles e do manguito rotador em pacientes obesos usando essas medicações. Também apenas sugerido, sem causalidade ainda confirmada.
Nenhum desses números deveria impedir o uso em quem tem indicação clara, onde o benefício é incomparavelmente maior.
Mas quando a indicação é cosmética, a equação muda: o benefício é menor e o risco, por pequeno que seja, precisa ser discutido com honestidade.
Quanto mais pessoas usando, maior a probabilidade de ter alguém com o efeito colateral raro indesejado.
E a perda de massa muscular? É mito ou verdade?
A perda de massa magra acontece em qualquer perda de peso. Seja com dieta ou com medicação. Em torno de 10-20% do peso perdido pode ser de músculo, podendo chegar até 40%.
Com Ozempic e Monjauro não é diferente. Importante manter exercício resistido e dieta adequada para deixar esse valor perto dos 10%, e não dos 40%.
E agora, a parte que quase ninguém discute: o que acontece quando você para.
Estima-se que de 20 a 50% dos pacientes interrompem o uso no primeiro ano.
Com uma casuística demonstrando que até metade das pessoas interrompem o uso, temos de ficar atentos.
Os motivos não são difíceis de entender: custo elevado, efeitos gastrointestinais importantes ou a percepção de que “já emagreci o que precisava”.
E o que acontece depois é previsível, mas pouco falado.
Uma outra metanálise recente com mais de 9.300 participantes mostrou que, após a interrupção, o reganho médio é de 0,4 kg por mês com projeção de retorno ao peso inicial em cerca de dois anos.3
No estudo STEP 4, quem parou a semaglutida (ozempic) após 20 semanas de uso e passou para placebo recuperou peso de forma significativa (recupera até 60-70% do peso perdido), enquanto quem continuou seguiu perdendo.4

Ainda mais preocupante, em um estudo com pessoas que pararam de usar o Monjauro (Tirzepatida), apenas 16% dos participantes conseguiram manter pelo menos 80% do peso perdido com a medicação.5
Outro dado preocupante não é quanto se recupera, é como.
Recentemente, na newsletter da 100 Years Club (que recomendo a leitura), o Rafael Lund, comentou sobre um fenômeno chamado fat overshoot: quando você perde peso com alguma estratégia e depois ganha novamente o perdido (efeito sanfona), a gordura volta mais rápido do que o músculo (massa magra).
Como no rebote com a caneta você retorna ao peso original muito mais rápido do que com a dieta, é possível que haja um desequilíbrio na composição corporal: mais gordura e menos músculo do que antes.
O resultado: você volta ao peso original, só que com mais gordura e menos músculo.
Resumo da ópera: é MUITO difícil manter o peso após suspender as medicações. E é possível que, sem estratégia adequada, sua composição corporal piore depois desse ciclo com a retomada do peso.
É necessário uma estratégia multiprofissional, que envolva adequação nutricional, criação do hábito de atividade física frequente e mudanças gerais no estilo de vida.
Minha posição.
Não sou contra o uso de canetas emagrecedoras fora das indicações cardiovasculares tradicionais.
Pelo contrário, acho que podem ser uma ferramenta estratégica poderosa na perda de peso e na mudança de estilo de vida.
Mas ferramenta estratégica é diferente de atalho.
Não é pra ficar fácil perder peso. As canetas servem para maximizar sua perda.
Para maximizar o benefício e reduzir o risco de efeitos colaterais e do reganho, não basta aplicar a caneta toda semana.
É preciso:
Acompanhamento real (não receita por prescrição online sem avaliação)
Mudança de padrão alimentar durante o uso
Exercício resistido para proteger massa magra
Planejamento de descontinuação: saber quando e como reduzir, até parar
Entender que a caneta abre uma janela de oportunidade: quem não muda o estilo de vida dentro dessa janela vai recuperar o peso e, possivelmente, piorar a composição corporal.
A caneta é um instrumento. O plano é o que faz a diferença.
Até semana que vem.
Sattar N, et al. Cardiovascular, mortality, and kidney outcomes with GLP-1 receptor agonists in patients with type 2 diabetes: a systematic review and meta-analysis of randomised trials. Lancet Diabetes Endocrinol. 2021 Oct;9(10):653-662.
Lincoff AM, et al; SELECT Trial Investigators. Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in Obesity without Diabetes. N Engl J Med. 2023 Dec 14;389(24):2221-223
West S, et al. Weight regain after cessation of medication for weight management: systematic review and meta-analysis BMJ 2026; 392 :e085304
Rubino D, et al. Effect of Continued Weekly Subcutaneous Semaglutide vs Placebo on Weight Loss Maintenance in Adults With Overweight or Obesity: The STEP 4 Randomized Clinical Trial. JAMA. 2021;325(14):1414–1425.
Aronne LJ, et al. Continued Treatment With Tirzepatide for Maintenance of Weight Reduction in Adults With Obesity: The SURMOUNT-4 Randomized Clinical Trial. JAMA. 2024;331(1):38–48.


