Por que atletas caem em campo?
Eriksen caiu de novo no domingo. Dessa vez, um aparelho o salvou.
Nas últimas semanas fiquei discutindo comigo mesmo se deveria manter a frequência da produção da newsletter e posts no Instagram em virtude da Copa do Mundo.
Por qual motivo?
Primeiro: eu AMO a Copa do Mundo.
A energia, a união e as experiencias compartilhadas com as pessoas próximas nessa época é especial. É muito mais do que só futebol.
Gosto tanto que, há 04 anos, estive lá no Qatar acompanhando todos os jogos da seleção. Do iluminado gol do Neymar até o triste empate da Croácia, vistos de perto.
Segundo, por que não sou só eu que amo a Copa. O interesse por qualquer outro assunto que não futebol cai nessa época.
Tenho uma empresa de educação médica em Cardiologia há 05 anos e na copa passada foi muito claro: as visualizações de posts, newsletters e podcasts cai muito, de modo semelhante ao que acontece em época de Natal e Ano Novo.
Bom, então, se eu falhar uma semana, não me julguem. Também terei uma semana de férias em julho que deve contribuir para isso.
Mas por enquanto vou manter.
E com um foco ainda maior: a conscientização sobre a saúde nos esportes e atividade física.
Pouco após essa dúvida de me manter vivo por aqui, aconteceu um novo incidente com o atleta Christian Eriksen, da Dinamarca.
O mesmo cujo coração havia parado há 5 anos, teve de novo um mal súbito em campo, dessa vez salvo pelo dispositivo colocado lá atrás.
É dessa história que vou conversar um pouco hoje.
Aos 65 minutos de Dinamarca e Ucrânia, nesse último domingo, Christian Eriksen levou as duas mãos ao peito e caiu.
Quem assistiu deve ter ficado assustado. Porque já tinha visto aquela cena antes.
Na Eurocopa de 2021, no mesmo mês de junho, o mesmo Eriksen desabou em campo.
Parada cardíaca. Ele só voltou à vida porque foi reanimado ali mesmo, no gramado.
A diferença entre as duas cenas cabe numa única frase.
Em 2021, Eriksen foi salvo por mãos treinadas e por um desfibrilador que chegaram a tempo.
Em 2026, ele já tinha um desfibrilador morando dentro do próprio peito. Vigiando cada batida. Pronto para agir.
Dessa vez, ele saiu andando.
A pergunta dessa edição é uma que assombra todo mundo que ama esporte: por que o coração de um atleta, supostamente o mais saudável de todos, simplesmente para?
Antes do susto, quero tentar te acalmar
Toda vez que um atleta cai em campo, a internet vira um caldeirão de pânico e achismo.
Então deixa eu começar tentando te tranquilizar.
Morte súbita no esporte é um evento real. Mas é raro.
O posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2026 estima algo entre 1 caso por 1 milhão e 1 por 5 mil atletas a cada ano, a depender do esporte.
Dados mais confiáveis dos EUA sugerem que em jogadores de basquete que essa estimativa pode chegar a 1 a cada 5-8 mil atletas.
Esses dados não são consistentes pela própria difícil definição de “atleta”. Olha esse gráfico publicado por uma das revistas mais importantes de medicina do mundo, em uma revisão desse ano sobre morte súbita no esporte:
Traduzindo: a esmagadora maioria das pessoas que treina e compete nunca vai passar nem perto disso.
E tem mais. Lembra da edição dos passos? Quem se mexe morre menos, e morre mais tarde.
O exercício é um dos remédios mais poderosos que existem para o coração.
Estes casos chocam justamente porque são exceções.
Eles não são um motivo para você parar de correr. São um motivo para a gente entender o que está acontecendo, e estar preparado.
Por que o coração mais preparado da sala para de bater
A primeira coisa que você precisa saber é que “morte súbita no esporte” não é uma coisa só.
A causa muda com a idade. E isso muda absolutamente tudo, inclusive o exame que faz sentido pedir.
Antes dos 35 anos
Quando se examina o coração de atletas jovens que morreram de forma súbita, os achados são de doenças possivelmente genéticas e que estavam com eles desde o nascimento. E não foram identificadas previamente.

As principais são:
Cardiomiopatia hipertrófica (HCM): espessamento anormal do músculo do coração. Juntando todos os tipos de hipertrofia do coração, podem chegar à 23% dos casos de morte súbita no esporte.
Anomalias das artérias coronárias: vasos sanguíneos do coração (as coronárias) possuem um trajeto fora do normal, que podem fazer elas fecharem com exercício intenso. Responsável por 10% dos casos de morte súbita.
Cardiomiopatia arritmogênica: doença em que o músculo cardíaco é substituído por tecido cicatricial (fibrose) ou gordura, causando arritmias fatais. Representa 8% dos casos.
Distúrbios elétricos: condições como síndrome do QT longo e síndrome de Wolff-Parkinson-White. Nesses casos o problema esta na parte elétrica, na “fiação”, não na estrutura. São as chamadas doenças do ritmo cardíaco, capazes de provocar uma pane elétrica fatal num coração que parecia saudável em quase todos os exames. Estão dentro dos 20% das causas em jovens, por possuírem o coração normal na autópsia.
Commotio cordis: fenômeno raro em que um impacto forte e direto no peito, no momento “errado” do ciclo cardíaco, desorganiza o ritmo elétrico do coração, independentemente de existir doença cardíaca prévia.
Os casos recentes ajudam a enxergar esse mapa.
Marc-Vivien Foé, camaronês, caiu em campo na Copa das Confederações de 2003 e não resistiu, aos 28 anos. A autópsia apontou para a cardiomiopatia hipertrófica. É o retrato da causa estrutural clássica, e foi o caso que acordou o mundo do futebol para o tema.
Aqui no Brasil, Serginho, do São Caetano, morreu em campo no Morumbi em 2004, aos 30 anos. A necropsia mostrou um coração de cerca de 600 gramas, quase o dobro do normal.
Mais recente, e ainda na América do Sul: o uruguaio Juan Izquierdo, do Nacional, caiu nos minutos finais de um jogo contra o São Paulo, também no Morumbi, em agosto de 2024. Morreu cinco dias depois, aos 27 anos. A causa foi uma parada associada a uma arritmia cardíaca. E, como no caso do Serginho, descobriu-se depois que um eletrocardiograma feito ainda nas categorias de base, lá em 2014, já havia detectado uma arritmia.
Agora, nesse ano, em uma competição de triatlo, a brasileira Mara Flávia faleceu durante a prova de natação do Ironman Texas, com causa da morte ainda não identificada.
Por fim próprio Eriksen entra nesse grupo. Nunca se divulgou o diagnóstico exato dele, mas a conduta foi a de um problema de origem elétrica.
Por isso ele recebeu um aparelho específico, que a gente explica daqui a pouco.
Depois dos 30 e poucos anos: volta um velho conhecido
A partir de mais ou menos 35 anos, as causas mudam.
A causa principal deixa de ser elétrica ou genética e passa a ser a velha doença das artérias do coração, responsável por mais de 80% das mortes súbitas cardíacas nessa faixa.
Traduzindo: é o mesmo entupimento das artérias que causa o infarto na população em geral. O assunto de sempre aqui da Não Infarte.
Só que agora sob o estresse extra do esforço intenso.
No atleta mais velho, o coração que falha quase sempre é o coração que já vinha acumulando placas em silêncio.
O caso fora da curva: quando não é doença nenhuma
Damar Hamlin, jogador de futebol americano do Buffalo Bills, sofreu uma parada cardíaca em campo em janeiro de 2023, na frente de milhões de pessoas, segundos depois de dar uma dividida.
O diagnóstico foi commotio cordis. Algo raro e cruel: uma pancada no peito, no milésimo de segundo errado do ciclo do coração, capaz de desorganizar o ritmo de um coração totalmente saudável.
Não havia doença escondida. Foi uma causalidade extremamente rara.
Por isso Hamlin não precisou de aparelho nenhum depois. O que salvou a vida dele foi o atendimento rápido.
O número mais importante dessa edição
Se você for guardar uma única coisa daqui, guarde esta.
Na maioria das paradas em campo, o coração entra num ritmo elétrico caótico chamado fibrilação ventricular.
Nesse cenário, o choque do desfibrilador não é só importante. É o único tratamento que funciona.
E ele tem prazo de validade, medido em minutos.
Os números são diretos ao ponto de doer:
Com desfibrilador por perto e socorro em até 3 minutos, a sobrevivência chega a 60 a 70%.
Sem desfibrilador e sem um plano organizado, a sobrevivência raramente passa de 5%.
A cada minuto perdido sem reanimação, a chance de sobreviver cai de 6 a 10%.
Traduzindo: a diferença entre a tragédia e o final feliz quase nunca está na sorte.
Está em quanto tempo o choque demora a chegar.
Foi isso que separou os desfechos.
Hamlin recebeu reanimação e choque ainda no campo. Sobreviveu.
Eriksen, em 2021, idem.
Foé e Serginho, em outra época, não tiveram a mesma corrente funcionando a tempo.
E é aqui que mora o nosso desconforto nacional.
O mesmo posicionamento da SBC mostra que, no Brasil, a estrutura para responder a essas emergências ainda engatinha: a avaliação adequada dos atletas alcança só 30 a 40% dos casos, os desfibriladores no local cobrem 50 a 60%, e o treino em reanimação não passa de 25 a 35%.
O que salva é a identificação dos ateltas em risco (e a ciência tem avançado nisso) e a execução das medidas necessárias que já sabemos que funciona, quando o coração para.
O que falta é colocar nos estádios, nas quadras e nas corridas de rua.
O aparelho que mudou o fim da história
Voltemos ao Eriksen, porque ele é o símbolo de uma virada.
Para quem sobrevive a uma parada cardíaca, na maioria das causas a recomendação é implantar um cardiodesfibrilador, o CDI.
Pense nele como um desfibrilador em miniatura, morando dentro do peito, ligado 24 horas por dia. Se o coração entrar de novo naquele ritmo caótico, o aparelho identifica e aplica o choque sozinho, sem depender de ninguém estar por perto.
É o que chamamos de prevenção secundária. Evitar que o segundo evento mate.
E aqui vem uma notícia boa que pouca gente conhece.
Durante anos, um diagnóstico desses encerrava a carreira. Hoje, não mais.
Um registro internacional acompanhou 201 atletas que voltaram a competir depois de uma parada cardíaca, já com o CDI implantado. Em quase quatro anos de acompanhamento, nenhuma morte durante o esporte.
Eriksen é o retrato disso. Voltou a jogar em alto nível, e hoje atua no Wolfsburg, na Alemanha.
Quando caiu de novo no domingo, foi justamente o aparelho que cumpriu seu papel e o tirou da pior hipótese.
Ele deveira estar jogando mesmo assim? Sabendo dessa possibilidade? E se o aparelho não funcionasse ou desse algum defeito? E se ele desse o choque sem precisar? Essas questões são discutidas entre os especialistas, ainda sem consenso científico e ético para essas perguntas.
Mas voltar não é a regra para todos. E é honesto dizer isso.
E é exatamente esse o ponto da medicina moderna: a resposta não é um carimbo igual para todos.
É uma conversa individual sobre risco, sobre valores, sobre o que cada pessoa quer da própria vida.
E dá para evitar antes que aconteça?
A proteção funciona em duas camadas.
A segunda camada é a que acabamos de ver: estar preparado para quando algo escapa.
Desfibrilador por perto, gente treinada, e o CDI para quem já sobreviveu.
A primeira camada vem antes de tudo. É tentar identificar o risco antes de a pessoa entrar em campo.
É a avaliação cardiológica antes do esporte.
E é exatamente esse o tema da próxima edição: Você precisa passar por um cardiologista antes de praticar o seu esporte?
Saber o que procurar, e o que fazer com o que se encontra, pode ser a diferença entre uma carreira interrompida e uma vida perdida.
A avaliação não existe para tirar ninguém do esporte.
Existe para tornar o esporte mais seguro.
A cardiologia moderna abandonou o velho “você nunca mais pode se exercitar”. Hoje a pergunta é outra: como você pode continuar, com o menor risco possível?
E o exercício segue sendo, de longe, um dos melhores remédios que existem. Estes casos raros não mudam isso.
Eles só nos lembram de focar na lição de casa.
Até a semana que vem.
Referências:
Lampert R, Harmon KG. Sudden Cardiac Arrest in Athletes. N Engl J Med. 2026;394:268-280.
Ritt LEF, et al. Posicionamento sobre Emergências Cardiovasculares para Eventos Esportivos 2026. Arq Bras Cardiol. 2026;123(4):e20260220.
American Heart Association. What is commotio cordis. 2023.
A morte de Serginho, 15 anos depois. A Gazeta. 2019.
Boletim médico sobre a morte de Juan Izquierdo. CNN Brasil. 2024.
Arritmia detectada em Izquierdo ainda em 2014. ESPN. 2024.
Eriksen passa bem após novo colapso em campo. Washington Times / AP. 2026.







