Na terça passada, começamos a conversa com uma linha no laudo de um dos exames mais solicitados no check-up, o ultrassom de abdome:
Esteatose hepática leve.
Se você perdeu, a primeira parte está aqui.
Gordura no fígado é muito comum.
Para a maioria das pessoas, ela não evolui.
Mas em algumas pessoas ela pode inflamar e com o tempo, gerar cicatrizes no fígado que podem ser graves.
E, para aqueles que não evoluem, a principal causa de morte de quem tem gordura no fígado é a doença do coração.
Bom, e agora, o que fazer com esse laudo?
Quem de fato precisa investigar o fígado
TGO e TGP são os exames de fígado que quase todo check-up traz.
Muita gente entende que, se vieram normais, o fígado está bem.
Faz sentido pensar assim e, parcialmente, está correto.
Mas quem tem gordura no fígado com essas enzimas normais ainda pode ter inflamação e até fibrose.
A diretriz europeia não recomenda procurar gordura no fígado na população geral.
O foco está nas pessoas com mais risco de fibrose:
quem tem diabetes tipo 2
quem tem aumento da circunferência abdominal e pelo menos mais um fator de risco
quem tem as enzimas do fígado alteradas
Eu, na prática, tenho costume de pedir no consultório o ultrassom de abdome para qualquer pessoa que tenha ao menos um fator de risco (dos clássicos que comentei na semana passada).
Feito o ultrassom e identificado esteatose hepática, vamos para um segundo passo.
Para essas pessoas existe um escore simples, chamado FIB-4.
Ele usa a idade, a TGO, a TGP e as plaquetas.
Ele ajuda a separar quem tem pouca chance de fibrose de quem precisa de um segundo exame.
Esse segundo exame costuma ser a elastografia, que mede de maneira indireta a fibrose do fígado.
O que faz a gordura sair do fígado
Quanto peso precisa perder
O tratamento principal da gordura no fígado é perder peso!
E temos metas claras conforme documentos internacionais:
5% do peso reduz a esteatose.
De 7% a 10% melhora a inflamação.
10% ou mais pode melhorar a fibrose.
A verdade é que pouca gente consegue chegar aos 5%.
Nos estudos, a perda costuma chegar ao máximo em seis meses.
Depois, parte do peso volta.
Em um ou dois anos, sobra algo perto de 5%.
Se isso já aconteceu com você, você está dentro do que os estudos mostram.
A boa notícia é que em quem não tem obesidade, uma perda menor continua ajudando.
Perder de 3% a 5% acompanhou o desaparecimento da gordura no fígado em metade dos participantes desse estudo.
Exercício ajuda mesmo quando a balança não mexe
Vários estudos mostram que o exercício reduz a gordura no fígado mesmo sem perda de peso.
A meta é a mesma que serve para o coração.
150 minutos por semana de atividade moderada, ou 75 de atividade intensa.
Treino intenso e treino moderado reduziram a gordura do fígado de forma parecida.
E a combinação preferida é aeróbico com musculação.
A lógica da musculação é simples: mais músculo, mais espaço para guardar açúcar fora do fígado.
A alimentação
O padrão alimentar com mais evidência é o mediterrâneo.
Muita verdura, fruta, legume, grão integral, azeite, castanha e peixe.
Ele também reduziu a gordura no fígado mesmo sem perda de peso.
Com restrição de calorias, cortar carboidrato ou cortar gordura funcionou de forma parecida.
E o jejum intermitente mostrou muito pouca evidência de ser melhor do que simplesmente comer menos.
Do outro lado, ultraprocessados e carne vermelha e processada aparecem associados a mais gordura no fígado.
O que você bebe
Refrigerante e bebida adoçada merecem atenção especial.
Num grande acompanhamento, tomar 4 ou mais porções de refrigerante por semana se associou a 45% mais risco de gordura no fígado.
É associação.
Mas é uma das mudanças mais fáceis de fazer.
Com o álcool, eu vou ser direto.
A diretriz europeia concluiu que a evidência não sustenta efeito protetor de beber pouco ou moderadamente, principalmente em quem tem fator de risco metabólico.
Álcool e metabolismo somam dano no fígado.
Beber muito de uma vez só é um fator de risco próprio para o fígado.
Em mulheres, o risco de cirrose já sobe a partir de uma a duas doses por dia.
Para quem tem gordura no fígado, a orientação é reduzir o álcool.
Para quem já tem fibrose avançada ou cirrose, a orientação é parar de vez.
A prateleira do fígado na farmácia
Entre em qualquer farmácia e procure a prateleira do fígado.
Cápsula de silimarina, chá detox, fórmula para limpar o fígado.
Em algumas clínicas, soro.
Faz sentido cair nisso.
O fígado de fato filtra muita coisa do sangue, e o marketing pega essa verdade e vende uma faxina.
Só que gordura no fígado é energia guardada no lugar errado.
Uma revisão com 202 ensaios clínicos de suplementos para gordura no fígado encontrou muita incerteza sobre qualquer benefício.
A silimarina pode melhorar as enzimas, mas os poucos estudos, todos pequenos, não mostraram melhora no tecido do fígado.
Nenhum produto dessa prateleira mostrou o que 5% de peso a menos já mostra.
E os remédios para esteatose? Precisa? Quais?
Remédio aqui é conversa de consultório.
Depende de quanto a doença avançou e do que vem junto com ela.
Mas existem quatro nomes que você vai ouvir.
Estatina
Começo pelo da minha área.
Muita gente com gordura no fígado deixa de tratar o colesterol com medo de piorar o fígado.
O medo tem lógica: a estatina pode subir as enzimas do fígado em até 3% das pessoas.
Mas lesão grave é rara.
Documentos europeus consideram a estatina segura em quem tem gordura no fígado, inclusive com cirrose compensada.
E ainda registram que muita gente com essa doença fica sem o tratamento de colesterol que precisava.
Quem tem gordura no fígado segue a mesma indicação de estatina de quem não tem.
Semaglutida
A famosa canetinha. É o princípio ativo do Ozempic e do Wegovy.
O ESSENCE acompanhou 800 adultos com inflamação e fibrose moderada a avançada, confirmadas por biópsia, durante 72 semanas.
A inflamação desapareceu em 62,9% de quem tomou semaglutida, contra 34,3% no placebo.
A fibrose melhorou em 36,8%, contra 22,4%.
O resultado foi medido na biópsia.
A parte do estudo que vai medir cirrose, câncer e morte ainda está em andamento.
E um estudo anterior, menor, resolveu a inflamação, mas não melhorou a fibrose.
Resmetirom
Foi o primeiro remédio aprovado pela FDA, em março de 2024, específico para inflamação no fígado com fibrose moderada a avançada.
Ainda não há dado de longo prazo e ainda não chegou oficialmente ao Brasil.
Pioglitazona
É um remédio antigo para diabetes.
Uma análise de cinco ensaios, com cerca de 500 pessoas, mostrou redução da fibrose e da inflamação, com ou sem diabetes.
O preço é o ganho de peso: cerca de 2,7% a mais do que no placebo.
As diretrizes discordam sobre ela.
A brasileira recomenda para quem tem inflamação comprovada - esteatohepatite, assim como a vitamina E (como remédio, não como suplemento).
A europeia considera segura, mas não recomenda como tratamento específico do fígado por falta de um estudo grande de fase 3.
O que os quatro têm em comum é que remédio costuma entrar para quem tem fibrose significativa ou outra indicação, como diabetes, obesidade ou colesterol.
E a decisão é com o seu médico.
Quanto mais baixo o degrau, mais o simples pode resolver
Nos primeiros degraus, o que tira a gordura do fígado custa pouco.
Alguns quilos a menos, 150 minutos de movimento por semana, menos bebida açucarada e menos álcool.
Quanto mais alto o degrau (hepatite, fibrose), mais a conversa passa a incluir exame e remédio.
Eu prefiro começar pelo que custa pouco e já mostrou efeito, e deixar o remédio para quem precisa dele.
Se o seu laudo veio com essa linha, o primeiro passo cabe no prato, no copo e no tênis.
E o que protege o fígado nesse caminho costuma ser o mesmo que protege o coração.
Mais clareza, menos ansiedade.
Faça menos. Faça certo.
Até semana que vem.




