Muitas pessoas me procuram no consultório por conta de algum exame do coração que veio alterado.
Mas no meio da pilha de exames do “check-up” tem um ultrassom de abdome.
E não infrequente, na última linha do laudo, aparece: esteatose hepática leve.
Quando pergunto o que ouviram ou leram sobre isso, a resposta costuma ser semelhante:
“Disseram que era só uma gordurinha no fígado. Que tenho que emagrecer.”
E tem razão, para a maioria das pessoas.
A gordura no fígado atinge até 38% dos adultos no mundo.
E a maior parte de quem tem nunca vai ter um problema sério no fígado.
Só que a palavra gordurinha esconde duas coisas básicas e importantes.
A primeira delas é com relação à minoria, que evolui para doença grave no fígado. E realmente é grave.
E segunda, tão importante quanto por estar mais frequente, é o que isso tem a ver com o coração.
A principal causa de morte de quem tem gordura no fígado é a doença cardiovascular.
Ou seja, esse laudo de abdome também é assunto de cardiologista. E hoje em dia, um dos que está mais em alta
.
O que significa esteatose hepática no seu laudo
Esteatose é o nome técnico para gordura acumulada dentro das células do fígado.
Por muitos anos, o quadro se chamou doença hepática gordurosa não alcoólica.
O nome fazia sentido.
Ele servia para separar da gordura no fígado causada pelo álcool, uma das principais causas de doença grave no fígado.
Mas esse nome descrevia a doença por aquilo que ela não tinha (a relação com o álcool).
Em 2023, o nome mudou para MASLD, sigla em inglês para doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (DHEM) - difícil não é?
Mas não se preocupe. Deixe para o seu médico lidar com essas mudanças de nomenclatura.
Eu trouxe isso pois a mudança coloca em foco a peça central de todo o problema: o metabolismo.
Para receber esse diagnóstico, a pessoa precisa ter gordura no fígado e pelo menos um destes sinais:
aumento da circunferência abdominal (sim, a barriga) ou peso acima do ideal
glicose alta, pré-diabetes ou diabetes
pressão alta
triglicérides alto
HDL baixo, aquele que costuma ser chamado de colesterol bom
E sem consumo importante de álcool ou outra causa que explique a gordura.
Na prática, é gordura no fígado com o metabolismo desregulado junto.
Como a gordura vai parar dentro do fígado
Cuidado com o raciocínio básico de que comer gordura vai aumentar gordura no fígado ou em algum lugar do corpo.
Não é bem assim.
Tenta seguir a seguinte linha:
Sua capacidade individual de estocar gordura sem causar dano é como se fosse uma caixa d’água.
Quando a caixa d’agua enche mais do que sua capacidade, a água vai para onde ela não deveria estar, podendo danificar a estrutura: como uma infiltração na parede.
O tamanho dessa “caixa d’água” varia de pessoa para pessoa.
Por isso duas pessoas com o mesmo peso podem ter fígados bem diferentes.
A genética responde por cerca de metade dessa variação.
Se você tem hábitos parecidos com os de um amigo e só o seu laudo veio alterado, parte disso veio de herança.
A gordura que mais pesa nessa história é a da barriga, a que fica em volta dos órgãos.
Quando ela fica resistente à insulina, pode liberar mais gordura no sangue.
E o fígado recebe boa parte dessa entrega.
O próprio fígado também pode fabricar gordura a partir do excesso de açúcar e da resistência à insulina.
Pouco músculo pode piorar a conta.
Os fatores que mais pesam, segundo a diretriz europeia:
Diabetes tipo 2, o mais forte de todos
Circunferência abdominal aumentada, mais do que o número da balança
Pressão alta e colesterol alterado, principalmente juntos
Álcool, que soma o próprio dano ao dano do metabolismo
Homens acima dos 50 anos e mulheres depois da menopausa
Depois da menopausa, a chance de ter gordura no fígado fica cerca de 2,4 vezes maior.
O estrogênio parece proteger o fígado, e essa proteção vai diminuindo.
E gente magra também pode ter.
Quem tem gordura no fígado com peso normal costuma ter mais gordura na barriga e menos músculo do que outras pessoas do mesmo peso.
Gordura no fígado é grave?
Vamos seguir a linha da infiltração na parede.
Primeiro aparece a mancha de umidade nela.
Se o vazamento é consertado, ela seca.
Se o vazamento continua, o reboco começa a estufar.
Depois vem a rachadura.
Por fim, a parede não aguenta mais o peso.
No fígado, a mancha é a gordura.
O reboco estufado é a inflamação.
A rachadura é a fibrose, uma cicatriz no fígado.
Quando a parede cede, temos a cirrose hepática, forma mais grave onde o fígado já não funciona direito e chance de problemas graves é alta.
De 10% a 30% das pessoas com gordura no fígado sobem para o degrau da inflamação. Dessas, 1 a 10% ao ano podem evoluir para cirrose.
A fibrose pode regredir, e quando isso acontece o prognóstico melhora.
Certo, mas o que o fígado tem a ver com infarto?
Gordura no fígado quase nunca chega sozinha.
Ela costuma vir com obesidade abdominal, glicose alta, pressão alta e colesterol alterado.
Que são justamente os maiores fatores de risco para infarto.
Por isso é muito difícil separar o que é culpa do fígado e o que é culpa do pacote.
Com essa dificuldade em mente, olhe o número.
Uma análise de vários estudos mostrou que quem tem gordura no fígado teve cerca de 1,5 vez mais eventos cardiovasculares, como infarto e AVC, mesmo depois de descontar os fatores de risco tradicionais.
Com a doença do fígado mais avançada, cerca de 2,5 vezes.
E a chance de desenvolver diabetes foi 2,2 vezes maior.
Eu penso na gordura no fígado como a luz do óleo acesa no painel do carro.
Ela avisa que o motor inteiro precisa de atenção.
E, nesse caso, ela pode ser também uma das peças com defeito.
É por isso que gordura no fígado costuma andar junto com colesterol alterado.
A boa notícia é que o caminho de volta também parece passar pelo pacote.
Ou seja, se você cuidar do pacote todo (que repito aqui toda semana), o fígado pode melhorar também
Um estudo no Reino Unido acompanhou cerca de 300.000 pessoas com diabetes por 12,5 anos.
Cada um desses fatores de risco a mais dentro da meta se associou a um risco cerca de 15% menor de problema grave no fígado.
É associação.
Mas aponta na mesma direção: pressão, glicose e colesterol controlados parecem proteger o coração e o fígado ao mesmo tempo.
Concluindo
A gordura no fígado sempre cresce em um terreno.
Aumento de gordura abdomninal, glicose, pressão, colesterol, sedentarismo, álcool.
Cuidar desse terreno pode tirar gordura do fígado e baixar o risco do coração ao mesmo tempo.
No consultório, quando aparece esteatose no laudo, a conversa sai do fígado e vai para o metabolismo inteiro.
Eu olho a pressão, a glicose, o colesterol, a cintura e o quanto a pessoa bebe.
Se o seu laudo veio com essa linha, eu gostaria que você tratasse como um lembrete.
O metabolismo inteiro merece atenção, e as coisas que funcionam são conhecidas.
Na terça que vem, eu continuo daqui, se você topar.
Quem de fato precisa investigar o fígado, quanto peso precisa perder para a gordura sair e quando o remédio entra.
A gordura no fígado é mais uma forma de o corpo mostrar como anda o metabolismo.
Entender isso ajuda a trocar medo por decisão.
Faça menos. Faça certo.
Ah e me ajude a definir futuros temas nos comentários ou respondendo esse e-mail.
Até semana que vem.




