A Copa do Mundo aumenta o risco de infarto?
Escalar ou não o Endrick pode ser a resposta.
Faltam 15 minutos para o fim. O jogo está empatado. Endrick ainda no banco de reservas → hoje a nossa esperança para trazer a vitória.
Você está sentado no sofá, comendo uma batata chips e de repente: o coração dispara, a respiração encurta, as mãos gelam, o estômago aperta.
Você continua parado no sofá. Mesmo assim, por dentro, é como se estivesse em campo.
Essa cena, repetida por milhares de pessoas ao mesmo tempo, é o ponto de partida de uma das ideias mais comentadas da cardiologia popular: a de que a Copa do Mundo aumenta o número de infartos.
Há algumas edições, em Estresse mata mesmo?, eu te mostrei como um susto emocional forte consegue, sim, disparar um evento cardíaco em pessoas vulneráveis.
O mecanismo é direto, está bem descrito e é plausível.
Quando uma coisa que importa muito para você entra em jogo, o cérebro entra em estado de alerta.
O sistema nervoso dispara adrenalina. O coração bate mais rápido e com mais força, a pressão sobe, e a necessidade de oxigênio do músculo cardíaco aumenta de repente.
Ao mesmo tempo, o sangue pode ficar um pouco mais propenso a coagular. Num coração saudável, nada disso é problema.
Mas numa artéria que já carrega uma placa de gordura instável, essa combinação pode ser o estopim que rompe a placa e fecha o vaso.
Isso é um infarto.
Foi naquela edição de estresse que eu citei, de passagem, a frase que virou manchete: assistir à Copa teria “dobrado o risco”.
Hoje eu quero pegar essa frase, abrir, e checar se ela realmente se sustenta.
Porque esse é o espírito da Não Infarte: nem toda narrativa que faz sentido é verdade.
Na real, a maioria não é.
Um mecanismo bonito explica como uma coisa poderia acontecer. Ele não prova que ela acontece, nem o tamanho do estrago.
Para isso, só os dados.
O estudo que começou tudo
O trabalho mais famoso sobre o tema saiu em 2008, na New England Journal of Medicine, uma das revistas mais respeitadas da medicina.
Pesquisadores alemães aproveitaram a Copa de 2006, sediada na Alemanha, para fazer o seguinte estudo: durante todo o torneio, médicos de emergência da região de Munique registraram cada urgência cardíaca que aparecia.
Foram 4.279 pacientes incluídos.
Depois, compararam o número de eventos nos dias de jogo da seleção alemã com o número em períodos normais, fora da Copa.
O resultado foi forte. Nos dias em que a Alemanha jogava, as emergências cardíacas foram 2,66 vezes mais frequentes que o normal.

Entre os homens, 3,26 vezes a mais. Entre as mulheres, 1,82. Foi daqui que nasceu a frase do “dobrou o risco”.
Um detalhe desse estudo corrobora com o possível mecanismo envolvido.
O pico de eventos não acontecia no dia seguinte, nem na média do torneio. Acontecia nas duas horas seguintes ao apito inicial.
Exatamente na janela do estresse agudo que comentamos no início da edição.
Outros países, o mesmo padrão
Se a ideia estiver certa, ela deveria reaparecer em outros lugares e outras Copas.
E reaparece, com uma assinatura curiosa.
Na Inglaterra, pesquisadores olharam a Copa de 1998 em um estudo publicado no BMJ.
No dia 30 de junho de 1998, a Inglaterra perdeu para a Argentina nos pênaltis e caiu fora do torneio. Nesse dia e nos dois seguintes, as internações por infarto subiram 25%.
Foram 55 infartos a mais do que o esperado.
Agora olha esse dado que interessante: nos outros jogos da Inglaterra, nada.
O salto aconteceu só no jogo da eliminação, decidido nos pênaltis.
Ou seja, nesse caso não foi “a Copa”. Foi a derrota.
E no Brasil? 🇧🇷
Aqui dá para medir com os nossos próprios dados.
Um estudo brasileiro nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia cruzou quase 156 mil internações do SUS ao longo de quatro Copas (1998, 2002, 2006 e 2010).
Nos dias de jogo do Brasil, os infartos aumentaram em 16%. Somando todos os dias de Copa, 9%.
Mas, e isso é importante, a mortalidade dentro do hospital não mudou. Mais gente infartando e chegando ao hospital, sem que mais gente morresse por isso.
Os alemães voltaram ao tema na Copa de 2014, agora com dados do país inteiro, não só de uma cidade.
Nesse estudo nacional, o número de infartos foi de fato um pouco maior durante a Copa de 2014 do que nos mesmos dias de 2013 e 2015. “Um pouco maior” aqui é literal: algo em torno de 4 a 7% a mais.
Repare no contraste com Munique. Quando você sai de uma cidade e passa a olhar um país inteiro, o efeito encolhe de “mais que dobrou” para “alguns por cento”.
Só que nem todo mundo concorda
Na Itália, pesquisadores fizeram a mesma pergunta e publicaram a resposta num artigo cujo título já dizia: “É só um jogo”.
Eles não encontraram aumento de eventos cardíacos ligado ao futebol.
E tem o maior registro de todos, o da Suécia (em número de pacientes).
Um estudo gigante, com 283 mil infartos registrados ao longo de 16 anos, foi atrás de vários gatilhos possíveis: feriados, datas do calendário e grandes eventos esportivos, incluindo Copas do Mundo e Olimpíadas.
Resultado para os eventos esportivos: nada. Nenhum aumento.
Mas o mesmo estudo achou um gatilho claro em outro lugar: o Natal. Na véspera de Natal, o risco de infarto foi 37% maior.
Pense no que isso significa. Na Suécia, o coração das pessoas não se abala com futebol. Ele se abala com o Natal, que é a data emocionalmente mais intensa daquela cultura.
Tradução: o gatilho talvez não seja o esporte em si. Mas quanto aquilo mexe com você.
O que sobra quando juntamos tudo
Quando os estudos brigam entre si, o caminho honesto não é escolher o que a gente prefere. É juntar todos e analisar a fundo. Isso se chama metanálise.
Em 2020, uma revisão sistemática reuniu 19 estudos sobre grandes torneios de futebol e coração. Três achados, em ordem de importância:
Primeiro: assistir a um grande torneio aumentou as internações por evento cardíaco agudo em cerca de 17%. Real, mas modesto. Bem longe do “dobrou” de Munique.
Segundo: a mortalidade geral quase não se mexeu. Lembra do detalhe de Munique, de que o estudo contava emergências e não mortes? É isso. Mais gente passa mal, mas a fila de óbitos quase não cresce.
Terceiro, e o mais interessante: quando separaram os jogos pelo resultado, apareceu o que a Inglaterra já tinha sugerido.
Nos torneios em que a seleção do torcedor perdeu, a mortalidade cardiovascular subiu cerca de 19%. Nos torneios em que a seleção ganhou, ela caiu cerca de 12%.
O gatilho, mais uma vez, não foi o jogo. Foi a derrota.
Ou seja, se a diferença entre vitória e derrota está na entrada ou não do Endrick no segundo tempo… vamos torcer, pela nossa saúde, que o Ancelotti tome sábias decisões.
Então, afinal, a Copa faz mal ao coração?
Juntando tudo, a resposta honesta é: sim, mas com tamanho e endereço certos.
Sim, jogos emocionalmente intensos podem disparar eventos cardíacos.
O efeito é real, é reconhecido, e é mais forte em jogos decisivos, derrotas e disputas de pênalti.
Mas o efeito é modesto na população geral, e se concentra quase todo em quem já tem doença no coração.
Lembro do primeiro estudo, o de Munique? Entre as pessoas que tiveram um evento cardíaco no dia do jogo, quase metade (47%) já tinha doença nas artérias do coração diagnosticada.
A Copa não constrói a placa de gordura nas suas artérias.
Quem constrói isso são anos de colesterol alto, pressão descontrolada, cigarro, diabetes.
O torneio só acende o pavio de uma pólvora que já estava lá.
E tem o endereço.
Onde o futebol é paixão nacional, como no Brasil, na Inglaterra e na Alemanha, ele aparece nos dados.
Onde não é o ponto emocional mais alto da cultura, como na Suécia que reage ao Natal, ele some.
O coração responde à intensidade do que importa para você, não ao esporte em si.
Daí a conclusão prática, que é a de sempre por aqui.
A solução não é deixar de assistir à Copa, nem se proibir de torcer.
Isso seria trocar uma alegria real por um medo exagerado, e medo não protege ninguém.
A solução é cuidar da pólvora antes de o torneio começar.
Se você tem fatores de risco, ou já tem doença no coração, é disso que se trata: manter pressão e colesterol controlados, tomar direitinho os remédios que já foram prescritos, não abandonar o tratamento.
Para quem já teve infarto ou tem doença nas coronárias é hora de ter a medicação em dia e procurar ajuda se aparecer dor no peito, falta de ar ou um mal-estar que não passa.
Então caso não esteja fazendo acompanhamento, ainda dá tempo de checar se está tudo em ordem antes das rodadas decisivas.
O resto é o que a gente repete toda semana.
Saúde é consciência, não ansiedade.
Pode torcer. Só chegue na Copa com o coração em dia.
Boa Copa, e claro, não infarte.
Referências
Admissions for myocardial infarction and World Cup football. BMJ, 2002.
Copa do mundo de futebol como desencadeador de eventos cardiovasculares. Arq Bras Cardiol, 2013.
Total numbers and in-hospital mortality of patients with myocardial infarction in Germany during the FIFA World Cup 2014. Sci Rep, 2021.
It is just a game: lack of association between watching football matches and the risk of acute cardiovascular events. Int J Epidemiol, 2010.
Christmas, national holidays, sport events, and time factors as triggers of acute myocardial infarction: SWEDEHEART observational study. BMJ, 2018.
Emotional stressors trigger cardiovascular events. Int J Clin Pract, 2012.




