O ultraprocessado que você toma para "render mais"
Energéticos: o que muda quando a cafeína sai da xícara e entra na lata.
Você possivelmente viu nas últimas semanas algum vídeo do influenciador Toguro com a frase “saBOOOR energético” em todo lugar.
Trezentos mil curtidas em um só um post. Outras centenas de milhares espalhadas por reels, stories, memes.
A bebida tem um detalhe que é um dos motivos do jargão do influenciador: ela não é energético. É um coquetel alcoólico com sabor de um energético.
Por uma razão regulatória precisa: no Brasil, a RDC ANVISA nº 719/2022 proíbe expressamente energéticos com álcool.
Ela exige que toda lata de energético traga, em destaque e negrito, o aviso “Não é recomendado o consumo com bebida alcoólica”.
É a mesma brecha que o Four Loko explorou nos Estados Unidos antes da FDA proibir em 2010, depois que jovens começaram a chegar nas emergências em estado de intoxicação grave.
E em fevereiro de 2025, o ator e ex-BBB Rafael Zulu, 42 anos, ficou quatro dias internado com fibrilação atrial (uma arritmia) depois de tomar 2,5 litros de energético misturados com álcool num encontro de família.
Precisou de dose de ataque de medicamento para reverter a arritmia.
Três cenários distintos, mas que possuem algo em comum: o energético.
Por isso tenho a missão de responder a seguinte pergunta hoje: “Energético faz mal? É perigoso? Qual o limite?”
Semana passada eu falei do café e disse, em resumo, que para a maioria dos adultos saudáveis ele provavelmente faz mais bem do que mal. Eu sou fã. Tomo, gosto do sabor, gosto do efeito.
Mas quando ele sai da xícara e vira industrializado… existem detalhes que merecem nossa atenção.
O café não faz bem só porque tem cafeína
Ele faz bem mesmo com a cafeína, junto dela, dentro de uma matriz química complexa de polifenóis, ácido clorogênico, melanoidinas, fibras solúveis e centenas de outros compostos que evoluíram juntos no grão.
O problema começa quando a indústria pega só a cafeína, isola, concentra em doses altas, e mistura com taurina, guaraná, açúcar e vitaminas em doses farmacológicas dentro de uma lata colorida.
Aqui já temos outra coisa.
Temos um ultraprocessado disfarçado de energia.
Esse é o argumento dessa edição inteira.
O que muda quando a cafeína sai da xícara
Não é a molécula. É como ela chega no seu corpo.
Quase nunca vem sozinha. Vem acompanhada de açúcar em doses de refrigerante (exceto os energéticos zero), taurina em doses 30 a 100 vezes maiores que a ingestão alimentar média, vitaminas em doses farmacológicas, corantes, aromatizantes, conservantes. E, na vida real, frequentemente combinada com álcool ou exercício intenso.
Absorção quase total. Um estudo de 2025 publicado na Food Chemistry mostrou que a cafeína em energéticos tem bioacessibilidade de 94 a 104% e biodisponibilidade de até 76%. Em outras palavras: praticamente toda a cafeína da lata vira cafeína no sangue. Numa lata grande, isso pode chegar a 115 mg de cafeína biodisponível em uma única dose.
Faixa absurda de variação. Energéticos no mundo inteiro variam de 50 mg a mais de 500 mg de cafeína por lata. Alguns shots concentrados chegam a 171 mg em apenas 28 mL..
Deixa de ser natural e se torna um industrializado. A ciência na Nutrição é muito complexa (como comentei semana passada, muitos fatores de confusão), mas uma convergência muito clara hoje se diz respeito as industrializados / ultraprocessados. Quanto mais processos e químicos um alimento possui, maior risco de doença cardiometabólica, disfunção gastrointestinal e até câncer. O energético troca uma excelente bebida natural (o café) por um potencial ultraprocessado deletério se em uso crônico.
O que tem dentro de uma lata
Comparativo dos energéticos mais vendidos no Brasil (composição pelos rótulos oficiais):
A ANVISA limita energéticos no Brasil a 350 mg de cafeína por litro e 400 mg de taurina por 100 mL. Os produtos da tabela cumprem esse limite.
O problema não está no teto regulatório. Está em um possível padrão de consumo danoso.
Repare numa coisa: a dose de cafeína por lata é relativamente parecida entre as marcas (60–80 mg, com Monster destoando porque a lata é quase o dobro de quantidade).
A grande variação entre os energéticos não é a cafeína. É o açúcar e sabor.
O que a evidência mostra
Em revisão sistemática com 96.549 indivíduos, os eventos cardiorrespiratórios mais frequentes em consumidores de energéticos foram:
Taquicardia: 12% a 56% (a depender do estudo e da população)
Palpitações (batedeiras): 17% a 21%
Dor torácica: 5% a 20%
Dispneia: 11% a 17%
Em ensaios clínicos, o consumo agudo de energéticos eleva pressão arterial e marcadores de maior risco de arritmia (sendo específico, pode prolongar o intervalo QTc, altera a onda T e aumenta a duração do QRS).
E uma revisão sistemática de 2023 catalogou 41 casos clínicos de eventos cardiovasculares graves após consumo de energéticos: 9 paradas cardíacas, 3 fatais, em pessoas previamente saudáveis. Os mecanismos descritos são exatamente os que estavam por trás do quadro do ator e ex-BBB Rafael Zulu.
Fibrilação atrial, taquicardia supraventricular, fibrilação ventricular, espasmo coronariano, infarto, dissecção de aorta. Tudo descrito. Tudo em jovens.
Sem terrorismo: o risco absoluto de uma lata isolada causar um evento desse em um adulto saudável é extremamente baixo.
O problema não é uma lata. É, novamente, o padrão de consumo.
O abuso agudo (de uma vez).
O efeito da mistura do energético com álcool
A mistura de energético com álcool tem um efeito perigoso descrito em laboratório: o estímulo da cafeína mascara a sedação do álcool, sem reduzir o álcool no sangue.
A pessoa acha que está mais sóbria do que está. Bebe mais. Toma mais decisões de risco.
Aquele mesmo estudo que englobou 96 mil indivíduos mostrou que quem mistura tem maior probabilidade de consumir álcool exagerademente (2,18x mais) e de precisar de atendimento médico (2,17x mais) do que quem bebe álcool sozinho.
É por isso que a FDA proibiu em 2010 bebidas alcoólicas com cafeína já adicionada nos EUA, depois das mortes ligadas ao Four Loko. Foi por isso que a ANVISA proibiu o mesmo no Brasil.
Aqui é onde eu preciso expressar uma opinião.
Eu não sou contra energético.
Não sou contra a pessoa que ocasionalmente toma uma lata. Não sou contra quem mistura com álcool numa festa, sabendo o que está fazendo.
O meu papel aqui não é fazer terrorismo.
É fazer com que você saiba os riscos que está assumindo, para que possa tomar decisões mais conscientes, moderar no consumo e não fazer coisas achando que não pode dar problema nenhum.
Existe uma diferença gigante entre uma noite com energético e álcool de vez em quando, sabendo a curva de risco, e o consumo em grandes volumes.
A primeira é uma decisão informada. A segunda é onde mora o risco de uma arritmia como a fibrilação.
Outra parte que me preocupa (por enquanto mais filosoficamente do que cientificamente): o uso crônico
Aqui é onde o paralelo com a edição do café importa.
Lembra do mecanismo da tolerância? Os receptores de adenosina do cérebro sofrem upregulation: quanto mais você bloqueia, mais o cérebro produz para compensar.
O efeito estimulante diminui progressivamente. Para sentir o mesmo efeito, você precisa aumentar a dose.
Isso vale para café e vale para energético.
Mas com energético existe um agravante: a dose inicial já é alta, o pico é mais alto, e a frequência costuma ser diária, muitas vezes chegando a várias latas por dia. E sem os benefícios das outras substâncias que acompanham o grão de café.
Aqui mora um problema que não aparece nos exames de sangue: você passa a precisar da lata para fazer o que antes fazia sem ela.
Treinar. Estudar. Trabalhar. Dirigir. A substituição é gradual. Você não nota.
Saúde é consciência, não dependência funcional.
Se você precisa de uma latinha para conseguir performar, isso já é um sinal. Não é mais ferramenta. Virou muleta.
Procure sempre usar bebidas com cafeína (seja o café, preferencialmente, ou algum energético) de maneira estratégica. Para ter o efeito quando realmente precisa de um empurrão a mais.
A parte que incomoda e onde a nutrição está de olho: o ultraprocessado disfarçado
Esse é o ponto onde a indústria te engana.
Você possivelmente não ficaria confortável em tomar, em um frasco de remédio, uma fórmula com 154 mg de cafeína + 1.892 mg de taurina + 54 g de açúcar + extrato de guaraná + 4 vitaminas em dose farmacológica + corantes + aromatizantes + conservadores.
Você talvez ia perguntar o que é, ia ler o rótulo, ia pesquisar antes de tomar.
Em uma lata colorida com slogan agressivo, com influenciador fazendo propaganda, vira commodity.
Vira algo que adolescente compra na padaria.
Então quando você pensa que está tomando uma variação do café, está na verdade ingerindo um produto industrializado com uma série de substâncias cuja exposição crônica (por muito tempo) podem não ser sinônimos de saúde.
A parte que é firme e curta: energético com açúcar
Aqui não tem muito papo. Vale o mesmo para refrigerantes que não são zero açúcar.
Uma lata de Red Bull tradicional tem 27 g de açúcar. Uma de Monster, 54 g. A OMS recomenda no máximo 25 g de açúcar livre por dia, idealmente menos.
Uma única lata de Monster é o dobro do limite diário recomendado.
E lembra do que o energético faz no seu corpo? Estímulo simpático máximo. Adicione a isso a carga glicêmica de um refrigerante. Um cenário metabólico-cardiovascular que pode ser deletério.
Posição clara, sem meio-termo: se você vai tomar energético, prefira o zero açúcar. Sempre.
Não tem motivo para tomar a versão tradicional em 2026.
E o pré-treino?
Pré-treino tem uma lógica semelhante, mas um capítulo à parte.
Doses maiores de cafeína (geralmente 150–300 mg por dose), formulações com beta-alanina, citrulina, taurina, e, em alguns produtos, estimulantes designer com risco cardiovascular já documentado pela FDA (DMAA, octodrina, BMPEA, oxilofrina).
Isso merece edição própria, e podemos conversar disso futuramente (responda esse e-mail ou comente aqui embaixo se quiser esse assunto que vou providenciar).
Já tenho mapeado os pré-treinos mais vendidos no Brasil (Horus, C4, Évora, Evolution, BOPE, Darkness… e a transparência da fórmula varia muito entre eles).
Por enquanto, a regra é simples: se você toma pré-treino, leia o rótulo. Cada nome estranho ali pode importar.
Quando faz sentido (e quando não faz)
Três cenários práticos:
Esporadicamente, em adulto saudável, zero açúcar, sem álcool, sem exercício extremo, sem cardiopatia conhecida; para compensar um cansaço ocasional. Risco absoluto baixo. Use se quiser. Ocasionalmente, em pequenas doses, sem virar hábito. Não tem problema. Seja feliz e aproveite.
Diariamente, para “render mais”. Aqui já não é energético, é muleta. E muleta cardiovascular é terreno onde a gente prefere não pisar.
Em doses muito elevadas e ainda: misturadas com álcool, antes de treino pesado ou história familiar de morte súbita. Não vale o risco. Não recomendo, use outras alternativas.
O filtro
O problema nunca foi a cafeína. É o que a indústria faz com ela quando isola, concentra, mistura, embala e vende como “energia”.
É a frequência. É o açúcar. É a ideia de que você precisa de algo numa lata para dar conta da própria vida.
Café faz bem porque é matriz complexa. Energético é industrializado e quando faz mal é exatamente por ser o oposto: cafeína isolada, em alta concentração, dentro de um ultraprocessado.
Saúde é consciência, não ansiedade.
Saúde é decisão informada.
Se depois de ler isso aqui você ainda quer tomar uma lata na sexta-feira, no churrasco, na festa ou em uma segunda puxada, toma.
Mas toma sabendo. Esse é o único papel que essa newsletter pretende ter.
Até semana que vem.
Fazer menos. Fazer certo.
Referências principais
Costantino A, Maiese A, Lazzari J, et al. The Dark Side of Energy Drinks: A Comprehensive Review of Their Impact on the Human Body. Nutrients 2023; 15(18):3922. https://doi.org/10.3390/nu15183922
Nadeem IM, Shanmugaraj A, Sakha S, et al. Energy Drinks and Their Adverse Health Effects: A Systematic Review and Meta-analysis. Sports Health 2021; 13(3):265-277. https://doi.org/10.1177/1941738120949181
Melones-Peña N, Gómez-Gómez B, Gracia-Lor E. How much consumed caffeine is actually absorbed? Bioaccessibility and bioavailability in energy drinks, infusions and soft drinks. Food Chemistry 2025; 492:145626. https://doi.org/10.1016/j.foodchem.2025.145626
Marczinski CA, Fillmore MT. Energy Drinks Mixed with Alcohol: What are the Risks? Nutrition Reviews 2014; 72(Suppl 1):98-107. https://doi.org/10.1111/nure.12127
Ercoşkun H. Energy Drinks And Health Risks: A Review Of Composition, Consumption Patterns, And Regulatory Gaps. Selcuk J Agric Food Sci 2025; 39(3):678-693. https://doi.org/10.15316/selcukjafsci.1572622
Hughes AR. Acute caffeine poisoning. UpToDate, atualizado em abril de 2026. https://www.uptodate.com/contents/acute-caffeine-poisoning
ANVISA. Resolução RDC nº 719, de 1º de julho de 2022. Link oficial



