O que a altitude faz com o seu corpo (e com o seu coração)
Subi rápido demais a 5.200 metros no Peru. Meu corpo sentiu. Aqui está o que muda quando o ar fica rarefeito, o que é risco real e o que é susto.
A Montanha Colorida fica a cerca de 5.200 metros de altitude, cravada nos Andes peruanos.
Eu estava lá com a Vic, no meio de uma paisagem que parece pintada à mão, e, por alguns minutos, o meu foco era na minha cabeça latejando e na respiração ofegante.
A gente sabia que isso podia acontecer.
Sabíamos tanto que tomamos uma decisão pra tentar evitar: em vez de subir a pé, subimos de quadriciclo.
A lógica parecia ótima. Menos esforço físico, menos cansaço, menos risco.
Só que a lógica estava errada.
Subir de quadriciclo significa subir rápido. E, como você vai ver nesta edição, a velocidade da subida é o principal fator de risco pra passar mal na altitude.
A gente evitou o esforço e, sem perceber, escolheu justamente o caminho que mais provoca sintomas.
Semana passada, lá dos 3.000 metros de Cusco, eu pedi para vocês me ajudarem a escolher o tema de hoje.
Na enquete, altitude e o impacto das boas relações na saúde terminaram em empate técnico. Reabri a votação no Instagram e, de novo, praticamente empate.
Como eu tinha acabado de descer daquelas montanhas com a lembrança ainda fresca (e a dor de cabeça, mais fresca ainda), a altitude levou a melhor.
A solidão fica pra uma próxima.
Antes de tudo, a mensagem central desta edição, pra você não sair com a ideia errada:
Para a imensa maioria das pessoas saudáveis, subir a altitude é seguro.
O corpo se adapta sozinho, e muito bem.
Mas as mudanças que acontecem lá dentro são reais, os sintomas são muito possíveis, e saber reconhecer, prevenir e cuidar é o que separa uma viagem inesquecível de um perrengue (ou, mais raramente, de algo pior).
Sem terrorismo. Apenas respeito pela montanha. Vamos por partes.
O que muda no corpo quando o ar fica rarefeito
Tem um mito que vale desfazer logo: no alto de uma montanha, o ar não tem “menos oxigênio” no sentido de porcentagem. Continua sendo os mesmos 21% de sempre.
O que muda é a pressão.
Conforme você sobe, a pressão atmosférica cai. É como se o ar ficasse mais fino. E, com menos pressão empurrando o oxigênio pra dentro do seu sangue a cada respiração, chega menos oxigênio de fato nas suas células.
O nome disso é hipóxia.

O seu corpo detesta ficar sem oxigênio. Então ele reage. Rápido.
Nos primeiros minutos:
Você respira mais e mais fundo, pra captar mais oxigênio.
Seu coração acelera e passa a bombear mais sangue por minuto.
Chega mais sangue ao cérebro.
Ao longo dos dias seguintes:
Seu corpo passa a produzir mais glóbulos vermelhos (as células que carregam oxigênio) e ajusta o volume de líquido do sangue, aumentando a concentração de hemoglobina.
Tradução: quase tudo isso é o seu corpo sendo inteligente, não doente. É a adaptação.
O problema aparece quando a adaptação não dá conta, e o motivo mais comum pra isso é ter subido rápido demais pro corpo acompanhar.
Os sintomas: do incômodo comum ao raro e grave
Pense num espectro. De um lado, o que é comum e chato. Do outro, o que é raro e perigoso.
Dor de cabeça de altitude. É o sintoma mais comum, e provavelmente o que mais me pegou lá em cima. Aparece acima de 2.500 metros, costuma surgir nas primeiras horas, lateja e piora quando você se mexe. Numa expedição a 4.559 metros, 37% das pessoas relataram dor de cabeça.
Mal agudo da montanha. É a dor de cabeça acompanhada de outras coisas: enjoo, falta de apetite, moleza, tontura persistente. Acontece em 25% a 43% dos viajantes entre 2.000 e 4.300 metros, aparece em 1 a 2 dias, e na maioria das vezes melhora com repouso e tempo de adaptação. Foi provavelmente o que eu e a Vic tivemos.
Apneia do sono de altitude. Essa costuma surpreender. Acima de 2.500 metros, é muito comum a respiração ficar irregular durante o sono, com pausas seguidas de despertares e aquela sensação de acordar sem ar. Pode aparecer já na primeira noite.
E aí vêm as duas que são raras, mas que você precisa conhecer, porque são emergências de verdade:
Edema pulmonar de altitude. Incomum abaixo de 3.000 metros. Aparece em 2 a 4 dias, com falta de ar que vai piorando, queda no desempenho físico e tosse seca que pode evoluir pra uma secreção rosada e espumosa. É líquido se acumulando no pulmão.
Edema cerebral de altitude. Incomum abaixo de 3.500 metros. É líquido no cérebro, e se manifesta como confusão mental e desequilíbrio pra andar, como se a pessoa estivesse bêbada.
Quando não é “só” dor de cabeça: confusão mental, andar cambaleante, falta de ar em repouso ou tosse com secreção rosada são sinais de alarme.
Nesses casos, a resposta certa é uma só: descer. Descer é o melhor tratamento pra tudo que é grave na altitude.
E o coração nessa história?
Na exposição a altitudes elevadas, o coração responde imediatamente à hipóxia com:
Taquicardia: aumento da frequência cardíaca em repouso que persiste durante toda a permanência em altitude.
Aumento do débito cardíaco (o quanto seu coração trabalha): elevação inicial de 43% em relação aos valores antes da ascensão, voltando ao normal após alguns dias.
Pressão arterial: elevação transitória da pressão arterial sistêmica.
Hipertensão pulmonar: aumento da pressão arterial do pulmão.
Esse conjunto da obra pode gerar incômodo e reduz a tolerância à exercícios.
Agora, além da esperada taquicardia, arritmias podem surgir a depender da altitude.
Um estudo recente e curioso, publicado na JAMA Cardiology em 2024 (o estudo SUMMIT), colocou monitores de batimentos em 41 alpinistas saudáveis durante a escalada do Monte Everest.
O resultado, à primeira vista, assustou: mais de 1 em cada 3 (38%) teve alguma arritmia durante a subida.
Antes de você só ler a manchete e pensar “então a altitude bagunça o coração”, calma. É exatamente aqui que os detalhes desmontam o susto.
Primeiro: a maioria das arritmias foi o coração ficando mais lento, não mais rápido. O contrário do que a gente imagina.
Segundo, e mais importante: nenhum dos participantes teve tontura, palpitação ou desmaio. As arritmias foram silenciosas e bem toleradas.
Terceiro: 80% dos eventos aconteceram nas altitudes mais baixas da escalada, quando eles ainda não usavam oxigênio suplementar.
E quarto, o mais importante: isso foi no Everest, a 8.849 metros, com homens jovens, atletas, já acostumados a altitudes extremas. Nada parecido com uma viagem a Machu Picchu ou ao Atacama.
Tradução: a altitude realmente mexe no ritmo do coração, isso é real.
Mas nas altitudes que um viajante comum alcança, e num coração saudável, essas mudanças costumam ser silenciosas e benignas.
Não dá pra pegar o dado do Everest e colar na sua viagem de turista.
Os autores foram honestos numa ressalva importante: o risco pode ser maior durante a fase de adaptação e em pessoas menos condicionadas do que aqueles alpinistas.
Quem precisa ter cuidado
Se o seu coração é saudável, tudo que veio até aqui é tranquilizador.
A conversa muda quando você já carrega uma doença de base, porque aí a altitude passa a cobrar de um sistema que já trabalha perto do limite.
Doença nas artérias do coração ou infarto prévio.
A altitude aumenta o trabalho do coração num momento em que a oferta de oxigênio está menor.
Pra quem tem placa de gordura nas artérias (às vezes sem saber) ou já infartou, isso pode significar risco de novo infarto ou isquemia e dor.
A orientação é fazer uma avaliação cardiológica antes da viagem, muitas vezes com teste de esforço.
Se infarto recente, a viagem deve ser adiada.
Ao chegar, pegar leve nos primeiros 1 a 2 dias, sem passar do nível de esforço que você já faz no nível do mar.
Arritmias prévias.
A altitude pode piorar as taquiarritmias por causa do aumento do estímulo adrenérgico.
Em grandes altitudes, podem ter também as bradiarritmias (frequência baixa), como vimos acima.
A regra de ouro é não viajar com a arritmia descontrolada, e ir com um plano e com as medicações de resgate combinadas com o seu médico.
Insuficiência cardíaca.
A tolerância ao esforço cai na proporção da gravidade, e existe risco de retenção de líquido.
O cuidado passa por acompanhar o peso, ajustar remédios com orientação médica e limitar a atividade nos primeiros dias.
Hipertensão.
A pressão pode variar de formas imprevisíveis na altitude.
Se a sua está bem controlada, não precisa de monitoramento especial.
Se está mal controlada, o ideal é viajar com um plano pra medir e ajustar.
E, de forma mais breve, o pulmão: quem tem doença pulmonar grave (como DPOC avançada) ou asma mal controlada tende a sentir mais falta de ar e mais queda de oxigênio.
Vale monitorar a saturação, conversar sobre oxigênio suplementar e, no caso da asma descontrolada, evitar as grandes altitudes até estar estável.
Existe um princípio que vale pra qualquer doença crônica: a viagem só deveria acontecer com a doença bem controlada antes de subir, com as medicações mantidas durante, e com um plano claro do que fazer se algo sair do lugar.
⛰️ Como se preparar
A boa notícia: o que mais protege você não é caro nem sofisticado. É paciência e, como sempre, fazer o básico bem feito.
Suba devagar. Essa é a heroína da história. Acima de 3.000 metros, a recomendação é não aumentar a altitude em que você dorme em mais do que uns 500 metros por noite, e incluir um dia de descanso a cada 3 ou 4 dias. Passar uma ou duas noites numa altitude intermediária antes de encarar o ponto mais alto ajuda bastante.
Cuide do básico nas primeiras 48 horas. As principais dicas são:
Beba bastante água;
Evite álcool e alimentação pesada na noite anterior;
Vá com calma no esforço físico;
Se você toma café todo dia, continue tomando: a dor de cabeça da abstinência de cafeína se disfarça muito bem de dor de altitude (experiência própria).
Existem remédios, mas eles têm hora e lugar. Pra subidas de risco moderado a alto, ou pra quem já passou mal na altitude antes, existe prevenção com medicação.
A mais conhecida é a acetazolamida, que, de forma bem simplificada, deixa o sangue levemente mais ácido e “engana” o corpo, acelerando a adaptação.
E o famoso chá de coca? Se você já foi ou for pra Cusco, vai receber chá de coca no hotel, no restaurante, em todo canto, sempre com a mesma promessa: cura o mal de altitude.
A folha de coca é parte da cultura andina há milênios. Mas, colocando a tradição de lado, as evidências dela para os sintomas da altitude são muito fracas.
Um estudo feito justamente em Cusco, a 3.350 metros, acompanhou 142 viajantes. Beber chá de coca não reduziu o risco de mal agudo da montanha: quem tomou passou mal na mesma proporção de quem não tomou.
As principais diretrizes de medicina de altitude (como as da Wilderness Medical Society e o CDC americano) chegam à mesma conclusão: os produtos de coca não foram estudados o suficiente e não devem substituir as medidas que comprovadamente funcionam.
Isso não quer dizer que é pra você recusar uma xícara oferecida com carinho por um anfitrião peruano. É só pra você não colocar a sua segurança na conta dela.
E aqui o aviso que fecha tudo:
Esta newsletter é informativa. Não é prescrição. Nada aqui é receita de remédio nem substitui uma consulta.
Se você vai subir a grandes altitudes, ou tem alguma doença de base, passe no médico antes: ele pode pedir um exame se for necessário e te orientar de verdade pro seu caso específico.
Voltando à montanha
As belezas das montanhas do Peru fizeram valer a pena as dores de cabeça de quem não se preparou adequadamente. A lição que eu trago é: prepare-se para sentir menos e curtir mais.
A altitude é segura pra quase todo mundo saudável.
Mas o corpo sente, e o corpo avisa.
Reconhecer os sinais, subir devagar e, se você tem o coração doente, planejar junto com o seu médico.
E, como sempre por aqui, o antídoto não é o excesso.
Você não precisa de pânico, nem de uma bateria de exames pra viajar.
Precisa de bom senso, de subir devagar e de conhecer o seu próprio corpo.
Eu subi rápido demais e paguei com uma belíssima dor de cabeça. Você, agora, já sabe fazer diferente.
Faça menos. Faça certo.
E, na montanha: suba devagar.
Até semana que vem.
Um abraço, agora de volta ao nível do mar,
Mateus.
Referências
Luks AM, Hackett PH. Medical Conditions and High-Altitude Travel. N Engl J Med. 2022;386(4):364-373.
Sherpa K, Sherpa PP, Sherpa T, et al. Risk of Cardiac Arrhythmias Among Climbers on Mount Everest. JAMA Cardiol. 2024;9(5):480-485.
Maria A Caravedo, et al. Risk factors for acute mountain sickness in travellers to Cusco, Peru: coca leaves, obesity and sex, Journal of Travel Medicine, Volume 29, Issue 5, July 2022, taab102, https://doi.org/10.1093/jtm/taab102





