Toda semana eu entro dentro de uma artéria entupida, sem exagero.
Eu passo um cateter pela artéria do braço, subo até o coração, atravesso a gordura que está fechando a passagem de sangue, amasso ela contra a parede da artéria com um balão e deixo um stent segurando.
O sangue volta a correr normalmente.
E tem uma coisa nessa rotina que eu nunca tinha parado para pensar direito.
Eu passo a vida a milímetros daquela gordura e sabemos pouco do que tem dentro dela.
Em 2024, um grupo italiano resolveu olhar de perto.
Eles não foram no coração. Foram na carótida, a artéria do pescoço, onde em uma cirurgia diferente da minha, feita por cirurgião vascular, a placa de gordura sai inteira do corpo.
Levaram esse material para o laboratório.
E encontraram plástico lá dentro.
Depois disso a internet pegou fogo.
Você provavelmente já ouviu a recomendação de evitar a sua garrafinha de plástico.
Essa edição é sobre o tamanho real dessa história.
Como o plástico vai parar dentro das suas artérias?
Pense num giz de lousa.
Cada vez que alguém escreve, o giz diminui. Ele não evapora simplesmente. Vira pó, e você respira aquele pó a aula inteira sem perceber.
O plástico faz a mesma coisa, só que devagar e no planeta inteiro.
Sol, calor, chuva e atrito vão quebrando a garrafa, o pneu, a sacola e a camiseta de poliéster em pedaços cada vez menores.
A definição é mais simples do que parece, e é só por tamanho:
Microplástico: qualquer pedaço sólido de plástico menor que 5 milímetros, mais ou menos a largura de uma aliança.
Nanoplástico: menor que 1 micrômetro. Mil vezes menor ainda, na escala de um vírus.
Existe uma parte pequena que já nasce assim, fabricada de propósito, como as microesferas de cosméticos.
Mas a maior parte do que circula por aí é resultado de degradação, não de fabricação.
E é aqui que o tamanho vira o problema
Pense na diferença entre uma pedra e a areia na porta de casa.
A pedra você vê e chuta para fora.
A areia entra na sola do sapato, vai para o tapete, chega na cama, e você nunca soube em que momento ela passou pela porta.
Abaixo de um micrômetro, a partícula atravessa a parede do intestino, a barreira que protege o cérebro e a até a placenta.
As mesmas características que fazem o plástico ser útil, durar e resistir, são exatamente as que impedem ele de desaparecer.
O material não some. Ele só fica pequeno o suficiente para você parar de enxergar.
Para você ter noção da escala
A produção mundial de plástico saiu de 1,5 milhão de toneladas em 1950 para mais de 460 milhões de toneladas em 2019.
A projeção é chegar a 1,1 bilhão de toneladas até 2050.
Cerca de 40% disso é item descartável. Aquele que você usa uma vez e joga fora.
Um detalhe é que nem todo plástico é igual.
Em experimentos com tamanho e dose controlados, o PVC se mostra mais tóxico para a célula do que o polietileno ou o polipropileno. E PVC e poletileno são os mais encontrados em tecidos humanos.
Como o plástico entra em você
Existem três possíveis caminhos e, apesar de não sabermos ainda o grau de contribuição de cada um, existem hipóteses pela prevalência.
Pela boca
É a via mais estudada.
Já acharam partícula em água de torneira, água engarrafada, cerveja, mel, sal de cozinha e principalmente em frutos do mar, que acumulam essas coisas ao longo da vida.
O número que mais assusta vem de 2024. Usando uma técnica nova de imagem, pesquisadores da Columbia estimaram cerca de 240 mil partículas em um único litro de água engarrafada.
Aproximadamente nove em cada dez delas eram nanoplásticos, pequenas demais para os métodos antigos enxergarem.
A boa notícia dessa via é que a maior parte do que você engole passa reto e sai.
A fração que preocupa é a menor, que consegue atravessar a parede do intestino.
Pelo pulmão
Essa é a subestimada, e talvez seja a mais importante de todas.
Vem de poeira urbana, desgaste de pneu e asfalto, tecido sintético, obra e indústria.
E tem um detalhe que costuma surpreender: as concentrações dentro de casa costumam ser bem maiores que na rua, principalmente em ambiente com carpete, estofado sintético e ar-condicionado mal ventilado.
Considerando que a gente passa quase o dia inteiro dentro de algum lugar fechado, essa é provavelmente a exposição que menos imaginamos ter.
Pela pele
A menos estudada das três, mas é uma possível via.
Polímero sintético é usado em diversos produtos de beleza. Uma revisão de 2024 que analisou 2.379 produtos encontrou microplástico em 16,4% deles.
Os esfoliantes faciais lideraram, com 26,5% positivos.
Certo, então eles estão em todo lugar. E daí?
A lista de onde já acharam essas partículas dentro do corpo humano cresceu muito rápido nos últimos cinco anos:
Sangue, pulmão, fígado, rim e baço
Intestino, urina e fezes
Placenta e leite materno
Testículo e sêmen
Cérebro
E, mais recentemente, placa de gordura, trombo e músculo do coração
Antes de chegar no coração, um importante estudo do cérebro publicado no ano passado é bem interessante e merece nossa atenção.
Foi um estudo de necropsia e publicado na Nature Medicine em 2025, e mediu essas partículas em cérebro, fígado e rim.
Três resultados:
A concentração no cérebro foi de 7 a 30 vezes maior que nos outros dois órgãos.
Entre 2016 e 2024, a concentração subiu cerca de 50%, acompanhando a curva de produção mundial de plástico.
Cérebros de pessoas com demência tinham concentração de 2 a 10 vezes maior que os cérebros sem demência.
Antes que você leia isso como “plástico causa demência”, os próprios autores avisaram o contrário.
🧠 Um cérebro com demência tem atrofia, tem a barreira de proteção mais frouxa e tem falha nos mecanismos de limpeza.
Um cérebro assim acumularia mais de qualquer coisa.
A explicação pode estar de trás para frente (famosa causalidade reversa).
Agora o impacto no coração
Esse é o trabalho que colocou o assunto dentro do consultório.
É o mesmo que eu citei lá no começo.
Foi um estudo prospectivo publicado no New England Journal of Medicine em 2024, feito em três centros italianos.
Entraram 304 pacientes com entupimento na carótida que já tinham indicação de operar. 257 completaram o acompanhamento.
Placas de gordura foram retiradas das artérias do pescoço (carótidas e analisadas).
O que acharam:
Polietileno em 58,4% dos pacientes. É o plástico de embalagem, sacola e garrafa.
PVC em 12,1%.
Foram pesquisados onze tipos diferentes de polímero. E esses dois foram o que estavam presentes pelos métodos analisados.
Na microscopia dava para ver a partícula, de borda irregular e serrilhada, alojada no meio das células de defesa que constroem a placa. Assustador!

Agora o dado ainda mais relevante veio do acompanhamento desses pacientes ao longo dos anos.
Quem tinha plástico na placa teve 4,5 vezes mais risco de morrer, infartar ou ter AVC do que quem não tinha.
E as placas com plástico tinham mais marcadores de inflamação e menos colágeno.
Traduzindo: o perfil de uma placa mais frágil, mais propensa a romper. Que é exatamente o que causa o infarto.
Depois vieram para a coronária, a artéria do coração
Em julho deste ano, o European Heart Journal levou a mesma pergunta para a artéria do coração, que é o meu território.
Colheram sangue de dentro da coronária durante o cateterismo, exatamente o exame que eu faço, em 61 pacientes separados em três grupos.
O resultado foi um gradiente interessante:
Grupo Tinham plástico detectável Pacientes com infarto agudo grave (artéria toda fechada) 84,2% Pacientes com placa de gordura, mas sem infarto 40,0% Coronárias normais 31,8%
Quanto mais grave a apresentação, mais plástico.
É um achado que reforça bastante a associação. Se fosse acaso, mais difícil ter essa escada.
O olhar cético (não pule se você se assustou)
Você que me acompanha aqui já sabe que eu não entrego dado sem entregar o defeito dele junto.
E nessa história o defeito também existe.
Na verdade não é defeito. Eu diria imperfeição. A robustez vai vir com o tempo.
1. A ordem das coisas pode estar invertida
Jogue confete numa parede lisa e e depois jogue em uma parede cheia de velcro.
Só a de velcro vai ficar coberta de confete.
E não foi o confete que transformou a parede em velcro, ele já estava lá.
Uma placa de gordura inflamada, com a parede machucada e cheia de vasinhos novos, é muito mais eficiente em capturar partícula que passa pelo sangue do que uma artéria lisa e saudável.
Se for isso que está acontecendo, o plástico é o sinal de que a placa está ruim, não o motivo pelo qual ela ficou ruim.
E isso pode mudar tudo. Se é a placa doente que atrai o plástico, trocar a garrafinha não resolve nada.
2. Tem um cigarro no meio do caminho
Esse é o achado mais interessante da história.
No estudo das coronárias, os pesquisadores testaram todas as variáveis para ver qual delas realmente previa a presença de plástico no sangue.
O único fator que sobrou foi o tabagismo, com quase seis vezes mais chance.
Quem estava exposto a mais poluição também tinha mais.
E entre os pacientes que juntavam as duas coisas, cigarro e poluição alta, todos tinham plástico detectável.
Agora repare no que isso significa, porque é mais bonito do que parece à primeira vista.
O material particulado da poluição do ar tem tamanho e composição muito parecidos com os da fumaça de cigarro.
Se o pulmão do fumante é a porta de entrada dessas partículas para o sangue, então o plástico não é um fator novo brigando com o cigarro por atenção.
Ele pode ser mais um pedaço da explicação de por que o cigarro mata tanto.
Pense na mancha amarela no dedo de quem fuma.
Se você juntar mil pessoas e separar quem tem o indicador amarelado, vai encontrar muito mais infarto nesse grupo.
A mancha não causou nada. A mancha é onde o cigarro encostou.
A pergunta honesta sobre o plástico é se ele é a doença ou se ele é a mancha. Ninguém sabe ainda.
3. Ninguém nunca mediu a exposição
Em nenhum desses estudos alguém mediu quanto plástico cada pessoa engoliu ou respirou ao longo da vida.
Mediram o que estava no tecido no dia da cirurgia.
E para dizer que uma coisa causa a outra, a exposição precisa vir antes da doença. Isso nunca foi demonstrado aqui.
O que dizem quem olhou o conjunto todo
Dois órgãos analisaram essa literatura inteira com calma.
A Organização Mundial da Saúde, em 2022, e a agência europeia de segurança alimentar, em 2025, chegaram na mesma conclusão: não existe prova conclusiva de que microplásticos estejam causando dano mensurável em humanos.
Mas claro, não achar prova não é o mesmo que provar que não existe.
O exame que vão querer te vender
Eu ainda não vi isso à venda no Brasil. Mas já vendem lá fora, direto ao consumidor, e é questão de tempo até chegar aqui: o teste que conta quantos microplásticos tem no seu sangue.
O problema nem é o preço.
Não existe padronização. Ninguém estabeleceu qual é o valor normal, qual é o alto e qual é o baixo.
Então o número que vier no papel não vai significar nada, porque não existe régua para comparar.
O mesmo vale para as cápsulas, os protocolos de limpeza e as saunas que prometem tirar o plástico do seu corpo.
Todos eles prometem reduzir uma medida que ninguém consegue medir direito.
Não existe teste validado. Não existe tratamento.
E não existe nenhuma evidência de que baixar essa carga mude qualquer coisa na sua saúde, porque isso nunca foi testado em ninguém.
Grava isso:
Assim que surgir no Brasil, já teremos clínicas lindas em Alphaville vendendo o teste e claro, um protocolo de desintoxicação. E não vai ser barato.
Espero que eu esteja errado.
Então o que eu faço com isso?
Aqui entra o princípio da precaução.
Não porque exista prova de que trocar tudo por vidro vai salvar seu coração. Não existe.
O raciocínio é outro: quando uma mudança custa pouco, dá pouco trabalho e pode evitar algo potencialmente deletério, ela pode fazer sentido mesmo antes da certeza absoluta.
Mas com honestidade.
Ninguém sabe quanto essas medidas reduzem a quantidade de plástico dentro do seu corpo. E ninguém sabe se essa redução, caso aconteça, muda algo na sua saúde.
Mesmo assim, algumas trocas passam no teste do bom senso:
Não esquente comida em recipiente plástico.
Calor e acidez são exatamente as condições que favorecem a liberação de partículas e a migração de aditivos. Se for colocar no micro-ondas, passe para um prato. Vidro ou inox para armazenar e reaquecer são opções melhores.
Troque potes plásticos muito riscados.
O risco é sinal de desgaste. E desgaste é uma forma de gerar partículas menores.
Prefira água filtrada em garrafa que não seja de plástico.
Não precisa transformar isso em religião. Mas água engarrafada foi onde apareceu um dos dados quantitativos mais impressionantes dessa história.
Cuide um pouco do ar dentro de casa.
Ventilar melhor, aspirar com alguma regularidade e reduzir poeira já é um começo. Filtro HEPA pode fazer sentido para algumas pessoas, principalmente em cômodos onde se passa muitas horas, mas não precisa virar mais uma obrigação cara.
Se for trocar a tábua de corte, prefira madeira ou vidro no lugar da plástica.
Não jogue fora uma casa inteira por causa disso. Só use a próxima compra a seu favor.
Eu tento fazer algumas dessas coisas, na medida do possível, sem estresse.
Não porque eu tenha certeza de que elas mudam meu risco de infarto. Eu não tenho.
Faço porque custam quase nada, atrapalham quase nada e, se daqui a dez anos ficar provado que o efeito é zero, eu terei perdido muito pouco.
E se você ainda fuma, tem colesterol alto ou pressão alta… eu preferia gastar essa conversa toda com você sobre o controle dessas alterações.
Não porque o plástico não importe. É que nessas situações eu tenho as duas certezas: certeza de que faz mal e certeza de que parar melhora.
No plástico eu não tenho nenhuma das duas. Ainda.
O que eu não quero é que você termine essa leitura com mais um medo na lista.
Já tem gente demais te vendendo isso.
Apenas um conhecimento para te ajudar a tomar decisões melhores.
É o que eu mais gosto de fazer no consultório com meus pacientes.
Mais saúde, menos ansiedade.
Faça menos. Faça certo.
Até semana que vem.
Referências
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Aimo A, Panichella G, Tommasi E, et al. The effects of microplastics and nanoplastics on cardiovascular disease: mechanisms and perspectives. Nature Reviews Cardiology. 2026.
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Qian N, et al. Rapid single-particle chemical imaging of nanoplastics by SRS microscopy. PNAS. 2024.
Landrigan PJ. Editorial: plastics, fossil carbon, and the heart. New England Journal of Medicine. 2024.
Microplásticos em sêmen e urina e qualidade seminal. eBioMedicine. 2024.
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Microplásticos no ar de ambientes internos. PLOS ONE.
Rotchell JM, et al. Detection of microplastics in human saphenous vein tissue using μFTIR: a pilot study. PLOS ONE. 2023. Ver também a manifestação de preocupação editorial de 2025.
Organização Mundial da Saúde. Dietary and inhalation exposure to nano- and microplastic particles and potential implications for human health. 2022.
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Hill AB. The environment and disease: association or causation? Proceedings of the Royal Society of Medicine. 1965;58:295-300.




