Eu tinha outra edição que estava quase pronta para ser lançada hoje.
Mas resolvi deixar ela para a semana que vem.
Ontem, segunda-feira, dia 2, o atacante Jesús de Miguel, do Tenerife, levou uma pancada no peito durante um jogo da segunda divisão da Espanha.
Ele tinha 30 anos.
Na manhã desta terça, o clube informou a morte dele.
Meus sentimentos à família, aos amigos e aos colegas.
Hoje eu quero explicar o que pode ter acontecido.
E ensinar o que você pode fazer se alguém cair na sua frente.
O que pode ter acontecido com Jesús de Miguel
Nos acréscimos do jogo, em uma entrada imprudente, o joelho do goleiro adversário atingiu o peito de Jesús.
Pelas imagens, ele levou a mão ao peito e, poucos segundos depois, desabou.
Foi reanimado, recuperou o pulso ainda no gramado e foi levado ao hospital, onde não resistiu.
A principal hipótese do colapso é o commotio cordis: uma parada do coração provocada por uma pancada no peito, muitas vezes sem doença nenhuma por trás.
Eu sei que muita gente está discutindo a entrada do goleiro. Realmente foi violenta.
Mas choques assim acontecem em vários esportes e quase sempre o resultado é um cartão vermelho, dor e hematoma.
Se a hipótese se confirmar, o que pode ter pesado aqui é um azar que não dá para controlar dentro de campo.
Como uma pancada no peito pode parar o coração
O coração bate porque um sistema elétrico avisa cada parte do músculo a hora de se contrair.
Em experimentos com porcos, entre uma batida e outra, apareceu um trecho de menos de 20 milésimos de segundo em que esse sistema pode ficar vulnerável.
Com a pancada acontecendo nessa fração de segundo, o ritmo do coração pode virar uma fibrilação ventricular, a pane elétrica em que o coração treme em vez de bombear.
Preciso ter medo? E o meu filho no futebol?
Não existe motivo para tirar ninguém do esporte.
A parada cardíaca no esporte já é rara, e o commotio cordis é uma das causas mais raras dela.
Jesús, aliás, foge do perfil.
No registro americano de 2002, com 128 casos, a idade média foi de 13,6 anos, e 95% eram homens.
Sei que isso pode assustar quem tem filho.
Mas são 128 casos em todo o registro, em um país inteiro, ainda que alguns possam não ter sido relatados.
Outro detalhe importante é que, como não há doença, não há o que um exame encontrar.
A avaliação antes do esporte continua útil para as outras causas de parada, como comentei em uma edição anterior da Não Infarte.
“Mas Mateus, dá para evitar?”
Sem mudar como o esporte funciona, muito pouco.
Em esportes com bola dura, a diretriz americana considera razoável usar bolas mais macias e protetores de peito, mas a proteção não provou que evita o problema.
Damar Hamlin, Chris Pronger e o que a gente já aprendeu
Em janeiro de 2023, Damar Hamlin, do futebol americano, levou uma pancada no peito e caiu em seguida.
Foi atendido ali mesmo, com massagem cardíaca e desfibrilador.
O diagnóstico foi commotio cordis, e ele foi liberado para voltar a jogar quatro meses depois.
Em 1998, no hóquei no gelo, Chris Pronger levou um disco no peito e também parou. Recebeu massagem cardíaca e voltou.
Longe das câmeras, em janeiro de 2025, um goleiro de 16 anos, em Maués, no Amazonas, levou uma bolada no peito e morreu. A causa não foi confirmada, mas a hipótese é também commotio cordis.
Ainda não sabemos como foi cada minuto do atendimento na Espanha, e as versões divergem.
E, mesmo com um bom atendimento, nem todo mundo sobrevive.
O que os números me permitem dizer é que uma cadeia de atendimento melhor salva vidas.
No registro americano, com 216 casos, a sobrevivência subiu de 10% (1970 a 1993) para 34% (1994 a 2012), e chegou a 58% nos seis últimos anos.
Quem foi reanimado em menos de 3 minutos sobreviveu em 40% das vezes.
Depois disso, em 5%.
Se alguém cair na sua frente: os primeiros três minutos
Você não precisa ser profissional de saúde, nem procurar pulso, como nos filmes.
Pela orientação da Sociedade Brasileira de Cardiologia, quem caiu e não responde deve ser tratado como parada cardíaca até que se prove o contrário.
Chame e sacuda os ombros.
Se ela não responde e não respira normalmente, trate como parada.
Respiração em soluços (o gasping) e tremores não contam. Eles podem atrasar o socorro de quem está olhando.
Aponte para duas pessoas.
“Você, ligue 192.” “Você, traga o desfibrilador.”
Se estiver sozinho, ligue primeiro para o 192, no viva-voz.
Comece a massagem cardíaca.
Mãos no centro do peito, braços esticados.
Afunde de 5 a 6 cm, de 100 a 120 vezes por minuto, e deixe o peito voltar.
Para manter o ritmo, pense em uma música: Stayin’ Alive, dos Bee Gees, a Marcha Imperial de Star Wars, Baby Shark ou uma das mais de 50 músicas da Taylor Swift nesse ritmo.
Se houver mais gente, revezem. Sem treino, faça só a massagem, sem boca a boca.
Pare se ela abrir os olhos, afastar sua mão ou voltar a respirar normalmente.
Quando o desfibrilador chegar, ligue e obedeça.
Ele fala o que fazer. Rasgue a camisa, seque o suor e cole os adesivos.
Ninguém encosta na pessoa na hora do choque. Depois dele, volte à massagem.
Se a pessoa só tiver desmaiado, ela tende a reagir, e você para.
A SBC também tem um curso para leigos, o TECA L.
O que academias, clubes e escolinhas podem fazer agora
Do posicionamento da SBC, eu destacaria cinco coisas:
Um desfibrilador que chegue em até 3 minutos, sinalizado e acessível também fora do horário de treino.
Bateria e adesivos conferidos, sempre antes de precisar.
Um plano escrito e curto: quem liga, quem faz a massagem, quem busca o aparelho, por onde entra a ambulância.
Equipe treinada, incluindo professor, segurança e árbitro.
Simulação a cada seis meses.
Concluindo
Quando nenhum exame consegue antecipar um evento, o que sobra é o que a gente faz nos minutos seguintes.
Entender de suporte básico de vida pode ajudar bastante. Alguns projetos que conheço em Minas Gerais e São Paulo têm ensinado crianças em escolas sobre como fazer a massagem corretamente.
Isso dando certo, o futuro é ter uma geração treinada.
Para hoje que eu digo no consultório quando alguém chega com medo depois de uma notícia assim: não pare de se exercitar. O esporte mais ajuda a sua saúde do que coloca ela em risco. De longe.
E, se eu puder pedir uma coisa: descubra onde fica o desfibrilador mais próximo do lugar em que você treina. Se não tem, ligue 192 em caso de emergências.
Nada disso exige exame caro, suplemento ou aplicativo.
Espero que essa tragédia ajude a espalhar esse conhecimento.
Faça menos. Faça certo.
Até semana que vem.
Se você prefere em vídeo
Acabei de gravar para o Youtube o vídeo sobre esse assunto:




