A doença mais previsível do mundo (e por que ainda mata tanto)
O que 200 mil pessoas em 52 países ensinam sobre o seu coração
O infarto é a doença que mais mata no mundo.
E ao longo de décadas de estudos, as causas já foram decifradas: fatores conhecidos, mensuráveis e tratáveis.
Bom, então você deve me perguntar: por que ainda morre tanta gente?
Essa é exatamente a pergunta certa.
E é a pergunta que eu quero responder hoje, com dados.
Não com opinião, não com medo, não com protocolo de clínica de prevenção gourmetizada.
E sim com os maiores estudos epidemiológicos já conduzidos na história da cardiologia.
Mas antes dos estudos, preciso te mostrar o tamanho do problema.
Por que o infarto preocupa
As doenças cardiovasculares são responsáveis por aproximadamente 1 em cada 3 mortes no planeta.
O infarto (com suas consequências) e o AVC, juntos, respondem por mais de 60% dessas mortes cardiovasculares.
No Brasil, os números são igualmente incômodos.
Dados de um grande estudo chamado PURE (o maior acompanhamento internacional do tema, com mais de 200 mil pessoas em 21 países) mostram que entre os quatro países sul-americanos estudados (Argentina, Brasil, Chile e Colômbia), o Brasil teve a maior incidência de eventos cardiovasculares.
E também foi o país com a maior proporção de hipertensos.
No mundo, a doença cardiovascular é a causa mais comum de internação hospitalar, respondendo por quase 1 em cada 4 internações. Aqui no Brasil, estima-se que as doenças cardiovasculares respondam por cerca de 10% de todas as internações do SUS.
E tem um dado do PURE que merece destaque: a taxa de mortalidade em países de renda média (como o nosso) é o dobro da dos países ricos. E em países de renda baixa, é quatro vezes maior.
Isso não é porque a ciência não chegou. É porque a execução falha.
Mas para entender por que a execução importa tanto, você precisa entender como um infarto nasce.
Como “nasce” um infarto
A maioria das pessoas imagina o infarto como um evento súbito. Um raio que cai do nada.
Mas a verdade é diferente: o infarto é o último capítulo de uma história que começou décadas antes.
Existe um conceito na cardiologia chamado continuum cardiovascular. Ele descreve a sequência de eventos que vai dos fatores de risco até o infarto, e além.
Funciona mais ou menos assim:
Fatores como pressão alta, colesterol elevado, diabetes e tabagismo provocam um estado inflamatório no corpo, o chamado estresse oxidativo.
Esse estresse agride a camada interna dos vasos sanguíneos (o endotélio) e causa o que chamamos de disfunção endotelial.
A partir daí, o corpo responde com mais inflamação.
Essa inflamação crônica, silenciosa, vai aos poucos danificando a parede da artéria, acumulando gordura, células inflamatórias e cálcio. Isso é a aterosclerose - as placas de gordura nas artérias.
A placa de gordura cresce devagar, ao longo de anos. Às vezes décadas. Na maioria do tempo, não causa sintoma nenhum.
Até que um dia, por uma combinação de fatores, essa placa se rompe ou se erode.
O corpo tenta “consertar” formando um coágulo no local.
E se esse coágulo obstrui a artéria por completo, a região do coração ou do cérebro que dependia daquela artéria fica sem sangue.
Isso é o infarto. Isso é a principal causa de AVC.
O conceito de inflamação como um grande pilar na doença cardiovascular não é uma novidade que o “guru da internet previu”.
Já são mais de 20 anos de conceito estabelecidos.
Cuidado com quem pega bases fisiopatológicas reais para criar narrativas distorcidas e vender protocolos caros.
Não existem soros ou vitaminas que reduzem sua inflamação.
Bom, se o processo é contínuo, quanto mais cedo você interrompe a cadeia, melhor o resultado. A pergunta que fica é: quais são, afinal, os fatores que iniciam essa cascata?
É aqui que entram os maiores estudos epidemiológicos já feitos.
O que as maiores investigações do mundo já provaram
O que vou te mostrar agora é o acúmulo de décadas de pesquisa, envolvendo centenas de milhares de pessoas em dezenas de países. Não é achismo. Não é tendência. É o que a ciência mais robusta que existe já estabeleceu.
Framingham: onde tudo começou
Em 1948, na cidade de Framingham, Massachusetts, começou um dos estudos mais importantes da história da medicina.
Pesquisadores recrutaram mais de 5.000 homens e mulheres saudáveis e passaram a acompanhá-los por décadas, com exames periódicos, para observar quem desenvolveria doença cardiovascular e por quê.
Os achados foram se acumulando ao longo de gerações de participantes e apontaram para um grupo consistente de fatores: hipertensão, diabetes, colesterol, tabagismo, obesidade e sedentarismo.
Mas o Framingham tinha uma limitação importante: era uma coorte predominantemente branca, de uma cidade americana. A pergunta que ficava era: esses fatores se aplicam ao resto do mundo?
INTERHEART: a resposta global
Em 2004, veio a resposta. O estudo INTERHEART, publicado na conceituada revista The Lancet, analisou cerca de 27 mil pessoas em 262 centros de 52 países.
O resultado foi impressionante e confirmando os achados do Framingham.
9 fatores modificáveis explicaram 90% do risco de um primeiro infarto: tabagismo, diabetes, hipertensão, obesidade abdominal, fatores psicossociais, colesterol (relação ApoB/ApoA1), sedentarismo, dieta pobre em frutas e vegetais e álcool1.
E esse efeito foi consistente em homens e mulheres, em todas as regiões geográficas e em todos os grupos étnicos.
Não importa se você é de São Paulo ou de Estocolmo. Os mesmos fatores explicaram 9 em cada 10 infartos.
Os dois mais fortes foram tabagismo e a o colesterol (razão ApoB/ApoA1 - um marcador lipídico que reflete o balanço entre colesterol aterogênico e protetor). Depois vieram diabetes, hipertensão e fatores psicossociais.
Olha esse gráfico que interessante.
Demonstra a chance de você ter o infarto (eixo Y, descrito como Odds Ratio) com base na presença dos principais fatores de risco isoladamente ou em conjunto (eixo X).
Uma pessoa que fuma, diabética, hipertensa, com colesterol alterado, obesa e fatores psicossociais (depressão, ansiedade) possui uma chance 333 vezes maior de ter um infarto do que uma pessoa com nenhum desses fatores.
Impressionante, não é?
Esses resultados foram confirmados em outro estudo, o INTERSTROKE, que identificou que os mesmos fatores explicam 90% do risco de um AVC.
A mensagem se reforça: o que protege o coração protege o cérebro.
Os vilões são os mesmos.
PURE: os dados de casa
O estudo PURE (Prospective Urban Rural Epidemiology), mais recente e com uma metodologia diferente, acompanhou mais de 167 mil pessoas em 21 países ao longo de anos, incluindo nações de alta, média e baixa renda.
Sua sub-análise da América do Sul (Argentina, Brasil, Chile e Colômbia), trouxe dados especificamente relevantes para nós.
Os 12 fatores de risco estudados contribuíram para 72% do risco para as doenças cardiovasculares na América do Sul. Os três maiores contribuintes foram:
Hipertensão — responsável por 18,7% do risco.
Obesidade abdominal — 15,4%.
Tabagismo — 13,5%.
E aqui um dado que merece atenção: entre os quatro países estudados, o Brasil apresentou a maior prevalência de hipertensão e de depressão.
Life’s Essential 8: o framework que consolidou tudo
Em 2022, a American Heart Association atualizou seu modelo de saúde cardiovascular ideal, estabelecendo os pilares para uma vida saudável: o Life’s Essential 8.
Os oito pilares são: alimentação saudável, atividade física, não fumar, sono adequado, peso saudável, colesterol controlado, glicemia em ordem (sem diabetes, ou controlada) e pressão arterial controlada.
Uma análise de 9 estudos juntos mostrou que pessoas com o maior número de métricas ideais tiveram uma redução de aproximadamente 80% no risco de doença cardiovascular e de cerca de 75% na mortalidade cardiovascular.
Quanto mais cedo na vida essas métricas são otimizadas, melhores os resultados.
Perceba que essas grandes porcentagens são muito próximas em todos esses estudos e é muito provável que essa faixa de redução de risco de 70 a 90% controlando esses fatores seja verdade.
É assim que a ciência se constrói, quando diversos estudos bem feitos convergem para um ponto comum.
E não quando um artigo mal feito, publicado em revista pequena, sugere algo que faz pouco (ou nenhum) sentido.
O protocolo é simples (e isso incomoda)
Depois de Framingham, INTERHEART, INTERSTROKE, PURE e Life’s Essential 8 (décadas de pesquisa, centenas de milhares de participantes e dezenas de países) a resposta é quase frustrante de tão direta:
Pressão controlada. Colesterol tratado. Não fumar. Se mover no mínimo 150 minutos por semana. Comer com bom senso. Manter um peso saudável e evitar barriga. Glicemia em ordem. Dormir 7 a 8 horas.
Nenhum desses itens é suplemento. Nenhum é wearable. Nenhum exige um check-up extremamente caro. Nenhum está à venda em cápsula.
Isso incomoda uma indústria inteira que lucra vendendo complexidade.
Mas a epidemiologia não se importa com o modelo de negócio de ninguém.
O básico bem feito vence. Não porque é fácil, ninguém disse que é.
Mudar hábitos, manter tratamento, construir consistência: nada disso é trivial. Mas é o que funciona.
E quando você sabe o que funciona, a ansiedade dá lugar à consciência.
Esse é o lugar onde eu quero te levar.
PS: Existem diversos outros fatores como educação, ambiente, acesso a cuidado, poluição, isolamento social e desigualdade estrutural, que também influenciam no risco cardiovascular.
O problema não é que os fatores clássicos estejam errados. É que eles são insuficientes quando usados sozinhos.
Em uma futura edição, vou aprofundar esse outro lado da história: os fatores de risco invisíveis e o infarto que acontece em quem “não deveria” infartar.
Até semana que vem.
O INTERHEART observou que a ingesta de álcool em doses pequenas a moderadas poderia ser protetor cardiovascular. Porém ao ajustar para possíveis fatores de CONFUSÃO, ele perdeu sua força. E novos estudos reforçaram essa tese.






Muito bom!
Excelente 👏🏻👏🏻